3 de outubro de 2010

Soberania


Um dia eu também sento ai... Adorei a foto amor!


Naquele dia, no meio do jantar, eu contei que
tentara pegar na bunda do vento — mas o rabo
do vento escorregava muito e eu não consegui pegar.
Eu teria sete anos. 
A mãe fez um sorriso carinhoso para mim e não disse nada. 
Meus irmãos deram gaitadas me gozando. 
O pai ficou preocupado e disse que eu tivera um vareio da imaginação.
Mas que esses vareios acabariam com os estudos.
E me mandou estudar em livros. 
Eu vim. E logo li alguns tomos havidos na biblioteca do Colégio.
E dei de estudar pra frente. 
Aprendi a teoria das idéias e da razão pura. 
Especulei filósofos e até cheguei aos eruditos. 
Aos homens de grande saber. 
Achei que os eruditos nas suas altas abstrações 
se esqueciam das coisas simples da terra. 
Foi aí que encontrei Einstein (ele mesmo— o Alberto Einstein). 
Que me ensinou esta frase:
A imaginação é mais importante do que o saber.
Fiquei alcandorado! 
E fiz uma brincadeira. 
Botei um pouco de inocência na erudição. 
Deu certo. Meu olho começou a ver de novo as pobres coisas do
chão mijadas de orvalho. 
E vi as borboletas. 
E meditei sobre as borboletas. 
Vi que elas dominam o mais leve sem precisar de ter motor nenhum no
corpo. (Essa engenharia de Deus!) 
E vi que elas podem pousar nas flores e nas pedras sem magoar as
próprias asas. 
E vi que o homem não tem soberania
nem pra ser um bentevi.

Manoel de Barros

Texto extraído do livro "Memórias Inventadas - A Terceira Infância", Editora Planeta - São Paulo, 2008, com iluminuras de Martha Barros.

Saudade


Saudade é solidão acompanhada,
é quando o amor ainda não foi embora,
mas a amada já...
Saudade é amar um passado
que ainda não passou,
é recusar um presente que nos machuca,
é não ver o futuro que nos convida...
Saudade é sentir que existe
o que não existe mais...
Saudade é o inferno dos que perderam,
é a dor dos que ficaram para trás,
é o gosto de morte na boca dos que continuam...
Só uma pessoa no mundo deseja sentir saudade:
aquela que nunca amou.
E esse é o maior dos sofrimentos:
não ter por quem sentir saudade,
passar pela vida e não viver.
O maior dos sofrimentos é nunca ter sofrido.


Pablo Neruda

30 de setembro de 2010

Sugestão


Sede assim - qualquer coisa
serena, isenta, fiel.

Flor que se cumpre,
sem pergunta.

Onda que se esforça,
por exercício desinteressado.

Lua que envolve ingualmente
os noivos abraçados
e os soldados já frios.

Também como este ar da noite:
sussurante de silêncios,
cheio de nascimentos e pétalas.

Igual à pedra detida,
sustentando seu demorado destino.
E à nuvem, leve e bela,
vivendo de nunca chegar a ser.

À cigarra, queimando-se em música,
ao camelo que mastiga sua longa solidão,
ao pássaro que procura o fim do mundo,
ao boi que vai com inocência para a morte.

Sede assim, qualquer coisa
serena, isenta, fiel.

Não como o resto dos homens.



Cecília Meireles

19 de setembro de 2010

Sabiá com trevas


IX

O poema é antes de tudo um inutensílio.

Hora de iniciar algum
convém se vestir roupa de trapo.

Há quem se jogue debaixo de carro
nos primeiros instantes.

Faz bem uma janela aberta
uma veia aberta.

Pra mim é uma coisa que serve de nada o poema
enquanto vida houver.

Ninguém é pai de um poema sem morrer.


VI

Há quem receite a palavra ao ponto de osso, oco;
ao ponto de ninguém e de nuvem.
Sou mais a palavra com febre, decaída, fodida, na
sarjeta.
Sou mais a palavra ao ponto de entulho.
Amo arrastar algumas no caco de vidro, envergá-las
pro chão, corrompê-las
até que padeçam de mim e me sujem de branco.
Sonho exercer com elas o ofício de criado:
usá-las como quem usa brincos.



Manoel de Barros

Do livro: "Arranjos para Assobio", Editora Record, 1998, RJ

18 de setembro de 2010

O Circo Místico


Não
Não sei se é um truque banal
Se um invisível cordão
Sustenta a vida real

Cordas de uma orquestra
Sombras de um artista
Palcos de um planeta
E as dançarinas no grande final

Chove tanta flor
Que, sem refletir
Um ardoroso expectador
Vira colibri

Qual
Não sei se é nova ilusão
Se após o salto mortal
Existe outra encarnação

Membro de um elenco
Malas de um destino
Partes de uma orquestra
Duas meninas no imenso vagão

Negro refletor
Flores de organdi
E o grito do homem voador
Ao cair em si

Não sei se é vida real
Um invisível cordão
Após o salto mortal


Composição: Edu Lobo / Chico Buarque

16 de setembro de 2010

Feelin' Good (Me Sentindo Bem)



Me Sentindo Bem

Pássaros voando alto, você sabe como me sinto
Sol no céu, você sabe como me sinto
Briza passando, você sabe como me sinto

É um novo amanhecer
É um novo dia
É uma nova vida
Pra mim
E estou me sentindo bem

Peixe no mar, você sabe como me sinto
Rio correndo livre, você sabe como me sinto
Florescer na árvore, você sabe como me sinto

Libélula ao Sol, você sabe o que eu quero dizer, não sabe?
Borboletas se divertindo, você sabe o que eu quero dizer
Adormecer em paz ao fim do dia
Isso que eu quero dizer!

E este velho mundo é um novo mundo
E um corajoso mundo
Pra mim

Estrelas quando brilham, você sabe como me sinto
Aroma do pinheiro, você sabe como me sinto
Oh a liberdade é minha
E eu sei como me sinto


Nina Simone

Sensibilidade e Silêncio


"A intenção não é ser diferente; a intenção é está dinamicamente acordado, fazendo barulho para que outros também possam acordar".

Hoje deu um dia ameno com o sol timidamente escondendo atrás das nuvens. Sempre vou a um pequeno bosque nas imediações da minha casa, ali enquanto praticava a ginástica milenar chinesa de Tai Chi Chuan, de repente um grande silêncio:
Raios de sol brincavam com as folhas; um pássaro cantava a distância; a borboleta multicolorida beijava as flores silvestres e a folha que caia da árvore balançava ao vento.
Naquele instante, era tudo aquilo.

Estamos acostumados a ter um apoio concentual das coisas. Mas a realidade e/ou verdade não entra em conceitos. Não podemos retê-la como uma idéia. Não podemos falar a verdade, portanto o silêncio é avassalador.


Krishnamurti

15 de setembro de 2010

Amo-te

Amo-te tanto, meu amor...não cante
O humano coração com mais verdade...
Amo-te como amigo e como amante
Nunca, sempre diversa realidade.
esta poesia é para você...que sempre me teve
mas nunca me pertenceu.....
que me ensinou a não ter limites, mas se limitou....
que não está ao meu lado
mas vai estar pra sempre junto de mim..
Amo-te afim, de um calmo amor prestante,
E te amo além, presente na saudade.
Amo-te, enfim, com grande liberdade
Dentro da eternidade e a cada instante.
Amo-te como um bicho, simplesmente
De um amor sem mistério e sem virtude
Com um desejo maciço e permanente.
E de amar assim muito amiúde
É que um dia em teu corpo de repente
Hei de morrer de amar mais do que pude.
Vinícius de Moraes

12 de setembro de 2010

Uns Versos Quaisquer

 
Tela "Sabrina", Modigliani


Vive um momento com saudade dele
Já ao vivê-lo. . .

Barcas vazias, sempre nos impele
Como a um solto cabelo
Um vento para longe, e não sabemos,
Ao viver, que sentimos ou queremos. . .

Demo-nos pois a consciência disto
Como de um lago
Posto em paisagens de torpor mortiço
Sob um céu ermo e vago,
E que nossa consciência de nós seja
Uma cousa que nada já deseja. . .

Assim idênticos à hora toda
Em seu pleno sabor,
Nossa vida será nossa anteboda:
Não nós, mas uma cor,
Um perfume, um meneio de arvoredo,

E a morte não virá nem tarde ou cedo. . .

Porque o que importa é que já nada importe. . .
Nada nos vale
Que se debruce sobre nós a Sorte,

Ou, tênue e longe, cale
Seus gestos. . . Tudo é o mesmo. . . Eis o momento . . .
Sejamo-lo. . . Pra quê o pensamento?. . .


Fernando Pessoa

7 de setembro de 2010

O caminho


“Esta manhã, antes do alvorecer, subi numa colina para admirar o céu povoado,
E disse à minha alma: Quando abarcarmos esses mundos e o conhecimento e o prazer que encerram, estaremos finalmente fartos e satisfeitos?
E minha alma disse: Não, uma vez alcançados esses mundos prosseguiremos no caminho.”

 
Walt Whitman