18 de setembro de 2010

O Circo Místico


Não
Não sei se é um truque banal
Se um invisível cordão
Sustenta a vida real

Cordas de uma orquestra
Sombras de um artista
Palcos de um planeta
E as dançarinas no grande final

Chove tanta flor
Que, sem refletir
Um ardoroso expectador
Vira colibri

Qual
Não sei se é nova ilusão
Se após o salto mortal
Existe outra encarnação

Membro de um elenco
Malas de um destino
Partes de uma orquestra
Duas meninas no imenso vagão

Negro refletor
Flores de organdi
E o grito do homem voador
Ao cair em si

Não sei se é vida real
Um invisível cordão
Após o salto mortal


Composição: Edu Lobo / Chico Buarque

16 de setembro de 2010

Feelin' Good (Me Sentindo Bem)



Me Sentindo Bem

Pássaros voando alto, você sabe como me sinto
Sol no céu, você sabe como me sinto
Briza passando, você sabe como me sinto

É um novo amanhecer
É um novo dia
É uma nova vida
Pra mim
E estou me sentindo bem

Peixe no mar, você sabe como me sinto
Rio correndo livre, você sabe como me sinto
Florescer na árvore, você sabe como me sinto

Libélula ao Sol, você sabe o que eu quero dizer, não sabe?
Borboletas se divertindo, você sabe o que eu quero dizer
Adormecer em paz ao fim do dia
Isso que eu quero dizer!

E este velho mundo é um novo mundo
E um corajoso mundo
Pra mim

Estrelas quando brilham, você sabe como me sinto
Aroma do pinheiro, você sabe como me sinto
Oh a liberdade é minha
E eu sei como me sinto


Nina Simone

Sensibilidade e Silêncio


"A intenção não é ser diferente; a intenção é está dinamicamente acordado, fazendo barulho para que outros também possam acordar".

Hoje deu um dia ameno com o sol timidamente escondendo atrás das nuvens. Sempre vou a um pequeno bosque nas imediações da minha casa, ali enquanto praticava a ginástica milenar chinesa de Tai Chi Chuan, de repente um grande silêncio:
Raios de sol brincavam com as folhas; um pássaro cantava a distância; a borboleta multicolorida beijava as flores silvestres e a folha que caia da árvore balançava ao vento.
Naquele instante, era tudo aquilo.

Estamos acostumados a ter um apoio concentual das coisas. Mas a realidade e/ou verdade não entra em conceitos. Não podemos retê-la como uma idéia. Não podemos falar a verdade, portanto o silêncio é avassalador.


Krishnamurti

15 de setembro de 2010

Amo-te

Amo-te tanto, meu amor...não cante
O humano coração com mais verdade...
Amo-te como amigo e como amante
Nunca, sempre diversa realidade.
esta poesia é para você...que sempre me teve
mas nunca me pertenceu.....
que me ensinou a não ter limites, mas se limitou....
que não está ao meu lado
mas vai estar pra sempre junto de mim..
Amo-te afim, de um calmo amor prestante,
E te amo além, presente na saudade.
Amo-te, enfim, com grande liberdade
Dentro da eternidade e a cada instante.
Amo-te como um bicho, simplesmente
De um amor sem mistério e sem virtude
Com um desejo maciço e permanente.
E de amar assim muito amiúde
É que um dia em teu corpo de repente
Hei de morrer de amar mais do que pude.
Vinícius de Moraes

12 de setembro de 2010

Uns Versos Quaisquer

 
Tela "Sabrina", Modigliani


Vive um momento com saudade dele
Já ao vivê-lo. . .

Barcas vazias, sempre nos impele
Como a um solto cabelo
Um vento para longe, e não sabemos,
Ao viver, que sentimos ou queremos. . .

Demo-nos pois a consciência disto
Como de um lago
Posto em paisagens de torpor mortiço
Sob um céu ermo e vago,
E que nossa consciência de nós seja
Uma cousa que nada já deseja. . .

Assim idênticos à hora toda
Em seu pleno sabor,
Nossa vida será nossa anteboda:
Não nós, mas uma cor,
Um perfume, um meneio de arvoredo,

E a morte não virá nem tarde ou cedo. . .

Porque o que importa é que já nada importe. . .
Nada nos vale
Que se debruce sobre nós a Sorte,

Ou, tênue e longe, cale
Seus gestos. . . Tudo é o mesmo. . . Eis o momento . . .
Sejamo-lo. . . Pra quê o pensamento?. . .


Fernando Pessoa

7 de setembro de 2010

O caminho


“Esta manhã, antes do alvorecer, subi numa colina para admirar o céu povoado,
E disse à minha alma: Quando abarcarmos esses mundos e o conhecimento e o prazer que encerram, estaremos finalmente fartos e satisfeitos?
E minha alma disse: Não, uma vez alcançados esses mundos prosseguiremos no caminho.”

 
Walt Whitman

Ou isto ou aquilo

Ou se tem chuva e não se tem sol
Ou se tem sol e não se tem chuva!

Ou se calça a luva e não se põe o anel,
Ou se põe o anel e não se calça a luva!

Quem sobe nos ares não fica no chão,
Quem fica no chão não sobe nos ares.

É uma grande pena que não se possa
Estar ao mesmo tempo em dois lugares!

Ou guardo o dinheiro e não compro o doce,
Ou compro o doce e gasto o dinheiro.

Ou isto ou aquilo: ou isto ou aquilo. . .
E vivo escolhendo o dia inteiro!

Não sei se brinco, não sei se estudo,
Se saio correndo ou fico tranquilo.

Mas não consegui entender ainda
Qual é melhor: se é isto ou aquilo.

Cecília Meireles

4 de setembro de 2010

Confiança...


"Aquele que não tem confiança nos outros, não lhes pode ganhar a confiança."


Lao-Tsé

Para Viver um Grande Amor


É preciso abrir todas as portas que fecham o coração.
Quebrar barreiras construídas ao longo do tempo,
Por amores do passado que foram em vão
É preciso muita renúncia em ser e mudança no pensar.
É preciso não esquecer que ninguém vem perfeito para nós!
É preciso ver o outro com os olhos da alma e se deixar cativar!
É preciso renunciar ao que não agrada ao seu amor...
Para que se moldem um ao outro como se molda uma escultura,
Aparando as arestas que podem machucar.
É como lapidar um diamante bruto...para fazê-lo brilhar!
E quando decidir que chegou a sua hora de amar,
Lembre-se que é preciso haver identificação de almas!
De gostos, de gestos, de pele...
No modo de sentir e de pensar!
É preciso ver a luz iluminar a aura,
Dando uma chance para que o amor te encontre
Na suavidade morna de uma noite calma...
É preciso se entregar de corpo e alma!
É preciso ter dentro do coração um sonho
Que se acalenta no desejo de: amar e ser amada!
É preciso conhecer no outro o ser tão procurado!
É preciso conquistar e se deixar seduzir...
Entrar no jogo da sedução e deixar fluir!
Amar com emoção para se saber sentir
A sensação do momento em que o amor te devora!
E quando você estiver vivendo no clímax dessa paixão,
Que sinta que essa foi a melhor de suas escolhas!
Que foi seu grande desafio... e o passo mais acertado
De todos os caminhos de sua vida trilhados!
Mas se assim não for...
Que nunca te arrependas pelo amor dado!
Faz parte da vida arriscar-se por um sonho...
Porque se não fosse assim, nunca teríamos sonhado!
Mas, antes de tudo, que você saiba que tem aliado.
Ele se chama TEMPO... seu melhor amigo.
Só ele pode dar todas as certezas do amanhã...
A certeza que... realmente você amou.
A certeza que... realmente você foi amada."


Carlos Drummond de Andrade

29 de agosto de 2010

A Natureza da Liberdade


Saanen, 31 de julho de 1962.

Krishnamurti

No outro dia, falávamos sobre a ação livre de idéia uma vez que, conforme dissemos, o pensamento é uma resposta da memória; o pensamento é sempre limitado, condicionado pelo passado e , por isso,jamais levará à liberdade.

Acho muito importante compreender esse fato. Se não compreendermos, por inteiro, o processo de autodefesa do pensamento, não poderá haver liberdade psicológica. E liberdade (que não é uma reação à não-liberdade nem o oposto disso) é essencial, pois só em liberdade podemos descobrir.Só quando a mente está de todo livre é que pode perceber o verdadeiro.

A verdade não é uma coisa contínua que se possa manter mediante prática ou disciplina, mas algo que se percebe num lampejo.A percepção da verdade não surge através de qualquer forma do pensamento condicionado, razão pela qual o pensamento não pode imaginar, concebernem formular o que seja a verdade.

Para se entender, plenamente, o que é a verdade, tem de haver liberdade.Para a maioria de nós, liberdade é apenas uma palavra, uma reação ou uma idéia que serve de fuga à nossa escravidão, ao nosso sofrimento, à rotina entediante do dia-a-dia; mas isso, absolutamente, não é liberdade.A liberdade não vem através da busca porque não podemos buscar a liberdade e tampouco procurá-la. A liberdade só vem quando compreendemos todo o processo da mente que cria suas próprias barreiras, limitações e projeções a partir de uma base de experiência condicionada e condicionante.

Para uma mente de fato religiosa, é importantíssimo compreender aquilo que transcende a palavra, que transcende o pensamento e toda experiência. E, para compreender isso, para estar com o que se acha além de toda experiência, para perceber isso profundamente e num lampejo, a mente deve estar livre. Idéia, conceito, padrão, opinião, julgamento ou qualquer disciplina organizada impedem a liberdade da mente. Essa liberdade traz a sua própria disciplina – não a disciplina da submissão, da repressão ou do ajustamento, mas a disciplina que não é produto do pensamento, que não tem motivo.

Seguramente que, num mundo confuso, com tanto conflito e miséria, é mais do que urgente entender que a liberdade é o primeiro requisito da mente humana - não o conforto nem o fugaz momento de prazer nem a continuidade desse prazer, mas uma liberdade total, que é a única origem da felicidade. A felicidade não é um fio em si mesma; como a virtude. É um subproduto da liberdade. Uma pessoa livre é virtuosa; mas o homem que pratica a virtude, submetendo-se a um padrão estabelecido pela sociedade, jamais saberá o que é liberdade e, por isso, jamais será virtuoso.

Gostaria de falar sobre a natureza da liberdade e ver se podemos, juntos, encontrar tateando o caminho para ela; mas não sei como escutam o que estamos dizendo. Escutam apenas as palavras? Escutam para compreender, para experimentar? Se escutam em qualquer desses dois sentidos, nesse caso muito pouco valor terá o que se está dizendo. O importante é escutar, não as palavras nem com a esperança de experimentar essa coisa extraordinária que é a liberdade, mas escutar sem esforço, sem luta, serenamente. Isso, contudo, exige atenção. Por atenção, quero dizer estarmos totalmente empenhados nisso, com a mente e o coração. Se ouvirem desse jeito, descobrirão por si próprios que não podemos ir em busca de tal liberdade, que ela não provém do pensamento nem de exigências emocionais ou histéricas. A liberdade surge, sem que precisem procurá-la, quando há total atenção.

Atenção total é o estado da mente que não tem limites nem fronteiras e que, portanto, é capaz de captar cada impressão, de ver e ouvir tudo.
E isso podemos fazer; não é coisa tão difícil assim. Torna-se difícil unicamente porque estamos presos a hábitos e isso é uma das coisas de que gostaria de falar.

Cremos poder escapar da inveja gradualmente e fazemos esforço para nos livrar dela aos poucos e, assim, acabamos introduzindo a idéia de tempo. Dizemos: "Tentarei livrar-me da inveja amanhã ou um pouco maisadiante"; entrementes, porém, continuamos invejosos. As expressões tentar e entrementes são a própria essência do tempo e, quando introduzem o fator tempo, não conseguem libertar-se do hábito. Ou rompem com o hábito de uma vez por todas, ou ele continua, embotando a mente e criando novos hábitos.

Mas será possível a mente livrar-se, por completo, dessa idéia de atingir alguma coisa gradualmente transcender algo, ficar livre gradualmente? Para mim, liberdade não é uma questão de tempo – nãoexiste nenhum amanhã no qual se possa ficar livre da inveja ou adquirir uma virtude. E, não havendo amanhã, não há medo. Só existe o pleno viver no agora; o tempo cessou de todo e, desse modo, acaba aformação de hábitos. Com a palavra agora refiro-me ao que é instantâneo, que não é reação ao passado nem uma forma de evitar o futuro. Há tão-somente um momento de atenção total; toda atenção, nesse momento, está aqui, no agora. Certamente que toda existência está no agora; quer sintam uma enorme alegria, quer experimentem rofundo sofrimento, ou seja o que for, só no presente é que isso acontece. Através da memória, no entanto, a mente acumula a experiência do passado e a projeta no futuro.

Se não estivermos livres do passado, não haverá liberdade pois a mente nunca é nova, fresca, inocente. Só a mente fresca e inocente é livre. Liberdade nada tem que ver com idade, com experiência. A mim me pareceque a essência mesma da liberdade está no compreender o mecanismo do hábito, tanto consciente como inconsciente. Não é uma questão de por fim ao hábito, mas de ver toda a estrutura do hábito. Temos deobservar como formam os hábitos e como, por rejeitar um hábito ou resistir a ele, criamos outro hábito. O que importa é estarem inteiramente cônscios do hábito; nesse momento é que poderão ver, por si mesmos, que findou o processo de formação de hábitos. Resistir ao hábito, lutar contra ele ou rejeitá-lo só dá continuidade ao hábito.

Quando lutam contra o hábito, dão vida a ele e, então, apenas atentos à estrutura do hábito como um todo, sem resistência, descobrirão estarem livres do hábito e, nessa liberdade, ocorre algo novo.



Do livro: "Sobre a Liberdade", Editora Cultrix