30 de junho de 2010

Cinzas e Neve (Ashes and Snow)


Documentário do extraordinário fotógrafo Gregory Colbert sobre seu trabalho, que explora a interação entre humanos e animais. Narrado por Laurence Fishburne, apresenta uma fotografi­a belíssima e texto bastante poético. Todas as imagens não foram manipuladas por computador, sendo exatamente como viu o artista. Uma obra bem particular, que transmite muita PAZ, algo que está bastante escasso atualmente.


Uma oração india ( valeu A. Mar., tu és gira!):

- Oração -
(Navajos)

Feliz possa caminhar.
Feliz com abundantes nuvens negras possa caminhar.
Feliz com abundantes chuvas possa caminhar.
Feliz com abundantes plantas possa caminhar.
Feliz por uma senda de pólen possa caminhar.
Feliz possa caminhar.
Como aconteceu em dias distantes possa agora caminhar.
Que de fronte de mim seja tudo belo.
Que atrás de mim seja tudo belo.
Que debaixo de mim seja tudo belo.
Que por cima de mim seja tudo belo.
Que derredor de mim seja tudo belo.
Belo belo acaba aqui.
Belo belo acaba aqui.


POEMAS AMERÍNDIOS
mudados para português por
HERBERTO HELDER




29 de junho de 2010

Solilóquio de um Visionário


“Para desvirginar o labirinto
Do velho e metafísico Mistério,
Comi meus olhos crus no cemitério,
Numa antropofagia de faminto!

A digestão desse manjar funéreo
Tornado sangue, transformou-me o instinto
De humanas impressões visuais que eu sinto,
Nas divinas visões do íncola etéreo.

Vestido de Hidrogênio incandescente,
Vaguei um século, improficuamente,
Pelas monotonias siderais...

Subi talvez às máximas alturas,
Mas, se hoje volto assim, com a alma às escuras,
É necessário que inda eu suba mais!”



Augusto dos Anjos

Texto extraído do livro "Eu e Outras Poesias, de Augusto dos Anjos "
ANJOS, Augusto dos. Eu e outras poesias. 42. ed. Rio de Janeiro : Civilização Brasileira, 1998

O Morcego


Meia noite. Ao meu quarto me recolho.
Meu Deus! E este morcego! E, agora, vê de:
Na bruta ardência orgânica da sede,
Morde-me a goela ígnea e escaldante molho.
"Vou mandar levantar outra parede...” ·— Digo. Ergo-me a tremer. Fecho o ferrolho
E olho o tecto. E vejo-o ainda, igual a um olho,
Circularmente sobre a minha rede!
Pego de um pau. Esforços faço. Chego
A tocá-lo. Minh'alma se concentra.
Que ventre produziu tão feio parto?.
A Consciência Humana é este morcego!
Por mais que a gente faça, à noite, ele entra
Imperceptivelmente em nosso quarto.


Augusto dos Anjos

21 de junho de 2010

Amalgamadas Almas Nuas


Não nos deixemos sós, os dois, as duas.
Nossas amalgamadas almas nuas,
entrelaçaram nosso ir e vir.
Sem nós, não saberíamos seguir.
Qual alma gêmea, qual, encontraríamos
tão igualzinha a mim, tão igualzinha a ti?

Se juntos habitamos o mesmo templo,
se percorremos sempre a mesma estrada,
Se adormecemos sob os mesmos sonhos
e tatuamos os mesmos lençóis.
Se juntos somos tudo, somos nada
e se ardemos sob tantos sóis.
Se as nossas vidas vivem entrelaçadas,
se já nos entregamos um ao outro,
se não sabemos desatar os nós?

O que fazer então os dois sozinhos,
perdidos animais, fora do ninho,
qual de nós dois encontraria a porta,
se há tanto tempo essa cumplicidade
nos transformou em natureza morta?


Kátia Drummond

Como Rasurar a Paisagem


A fotografia é um tempo morto
fictício retorno à simetria
secreto desejo do poema
censura impossível
do poeta


Ana Cristina Cesar

Aos poetas clássicos


Poetas niversitário,
Poetas de Cademia,
De rico vocabularo
Cheio de mitologia;
Se a gente canta o que pensa,
Eu quero pedir licença,
Pois mesmo sem português
Neste livrinho apresento
O prazê e o sofrimento
De um poeta camponês.

Eu nasci aqui no mato,
Vivi sempre a trabaiá,
Neste meu pobre recato,
Eu não pude estudá.
No verdô de minha idade,
Só tive a felicidade
De dá um pequeno insaio
In dois livro do iscritô,
O famoso professô
Filisberto de Carvaio.

No premêro livro havia
Belas figuras na capa,
E no começo se lia:
A pá — O dedo do Papa,
Papa, pia, dedo, dado,
Pua, o pote de melado,
Dá-me o dado, a fera é má
E tantas coisa bonita,
Qui o meu coração parpita
Quando eu pego a rescordá.

Foi os livro de valô
Mais maió que vi no mundo,
Apenas daquele autô
Li o premêro e o segundo;
Mas, porém, esta leitura,
Me tirô da treva escura,
Mostrando o caminho certo,
Bastante me protegeu;
Eu juro que Jesus deu
Sarvação a Filisberto.

Depois que os dois livro eu li,
Fiquei me sintindo bem,
E ôtras coisinha aprendi
Sem tê lição de ninguém.
Na minha pobre linguage,
A minha lira servage
Canto o que minha arma sente
E o meu coração incerra,
As coisa de minha terra
E a vida de minha gente.

Poeta niversitaro,
Poeta de cademia,
De rico vocabularo
Cheio de mitologia,
Tarvez este meu livrinho
Não vá recebê carinho,
Nem lugio e nem istima,
Mas garanto sê fié
E não istruí papé
Com poesia sem rima.

Cheio de rima e sintindo
Quero iscrevê meu volume,
Pra não ficá parecido
Com a fulô sem perfume;
A poesia sem rima,
Bastante me disanima
E alegria não me dá;
Não tem sabô a leitura,
Parece uma noite iscura
Sem istrela e sem luá.

Se um dotô me perguntá
Se o verso sem rima presta,
Calado eu não vou ficá,
A minha resposta é esta:
— Sem a rima, a poesia
Perde arguma simpatia
E uma parte do primô;
Não merece munta parma,
É como o corpo sem arma
E o coração sem amô.

Meu caro amigo poeta,
Qui faz poesia branca,
Não me chame de pateta
Por esta opinião franca.
Nasci entre a natureza,
Sempre adorando as beleza
Das obra do Criadô,
Uvindo o vento na serva
E vendo no campo a reva
Pintadinha de fulô.

Sou um caboco rocêro,
Sem letra e sem istrução;
O meu verso tem o chêro
Da poêra do sertão;
Vivo nesta solidade
Bem destante da cidade
Onde a ciença guverna.
Tudo meu é naturá,
Não sou capaz de gostá
Da poesia moderna.

Dêste jeito Deus me quis
E assim eu me sinto bem;
Me considero feliz
Sem nunca invejá quem tem
Profundo conhecimento.
Ou ligêro como o vento
Ou divagá como a lêsma,
Tudo sofre a mesma prova,
Vai batê na fria cova;
Esta vida é sempre a mesma.


Patativa do Assaré

Pássaros ao Acaso


Aprendi muito tarde a amar os pássaros
o que me causa certo pesar
mas agora tudo está resolvido
agente se compreende
eles não se ocupam de mim
e eu não me ocupo deles
eu os observo
eu os deixo fazer
todos os pássaros fazem bonito
eles dão exemplos
não um exemplo como por exemplo o Sr. Glacis
que foi extraordináriamente corajoso durante a guerra
ou o exemplo do pequeno Paul que era tão pobre e tão
belo e totalmente honesto e que com isso se tornou o
grande Paul tão rico tão velho e tão respeitável e tão feio
e tão avarento e tão caridoso e tão
piedoso
ou por exemplo a velha serviçal que teve uma vida e
uma morte exemplares sem polêmicas nada de roer unhas
nada de discussões com o patrão ou a patroa em torno destas
desagradáveis questões de
salários
não
os pássaros dão exemplos
exemplos como é preciso
exemplo de pássaros
exemplo de pássaros
exemplo as penas as asas os vôos dos pássaros
exemplo o ninho as viagens os cantos dos pássaros
exemplo a beleza dos pássaros
exemplo o coração dos pássaros


Jacques Prévert
Tradução de Luiz Edmundo Alves

20 de junho de 2010

Ocorrência


Aí o homem sério entrou e disse: bom dia. Aí outro homem sério respondeu: bom dia. Aí a mulher séria respondeu: bom dia. Aí a menininha no chão respondeu: bom dia. Aí todos riram de uma vez Menos as duas cadeiras, a mesa, o jarro, as flores as paredes, o relógio, a lâmpada, o retrato, os livros o mata-borrão, os sapatos, as gravatas, as camisas, os lenços.


Ferreira Gullar

No Silêncio dos olhos


Em que língua se diz, em que nação,
Em que outra humanidade se aprendeu
A palavra que ordene a confusão
Que neste remoinho se teceu?
Que murmúrio de vento, que dourados
Cantos de ave pousada em altos ramos
Dirão, em som, as coisas que, calados,
No silêncio dos olhos confessamos?


José Saramago
Em "OS POEMAS POSSÍVEIS"
editorial CAMINHO/Lisboa,1985

Canto 34


Agora eu conto
O que eu soube no Texas
Em minha juventude
(não vou contar a tomada de Álamo,
não escapou ninguém para contar
a tomada de Álamo,
aqueles cento e cinqüenta estão mudos
ainda em Álamo):
esta é a história do assassinato
a sangue frio
de quatrocentos e vinte moços.

Em retirada tomaram formação
De um quadrado vazio
Com as bagagens como parapeitos,
Novecentos as vidas do inimigo
Que agora os sitiava,
Nove vezes o que tinham em número
E o preço foi cobrado adiantado,
O coronel deles fora ferido
E a munição havia terminado,
Negociaram capitulação com honra
Papel timbrado e assinado,
Entregaram as armas e marcharam
Prisioneiros de guerra.

Eram o orgulho da raça dos rangers,
Inigualáveis em montaria
Rifles, canções, repastos, galanteios,
Enormes, turbulentos, generosos,
Amáveis e orgulhosos,
Barbudos, peles tostadas de sol,
Trajados à moda descontraída
Dos caçadores,
Nenhum contava mais de trinta anos.

No segundo Domingo de manhã
Foram levantados em grupo
e massacrados:
era uma linda manhã de verão,
a faina começou aí pelas cinco e meia
e às oito estava tudo terminado.

Nenhum se quis sujeitar
À ordem de ajoelhar,
Alguns tentaram inutilmente correr
Feito uns alucinados,
Alguns ficaram inabaláveis em pé,
Alguns poucos tombaram de uma vez
Com tiros na fronte ou no coração,
Os mutilados e desfigurados
ainda cavando o chão,
vivos e mortos estirados juntos
onde eram vistos pelos recém-vindos,
uns meio mortos tentavam sair de rastos
e eram então despachados a golpes de baionetas
ou esmagados a coronhas de espingardas,
um jovem com não mais que dezessete anos
agarrou-se ao algoz
até virem dois outros afrouxá-lo
e ficaram os três todos rasgados
e cobertos do sangue do rapaz. Às onze em ponto
Começou a incineração dos corpos.
Eis aí a história do assassinato
Dos quatrocentos e vinte homens moços.


Walt Whitman

Tradução:Eduardo Francisco Alves

Geir Campos