20 de abril de 2009
Espaço curvo e finito
Oculta consciência de não ser,
Ou de ser num estar que me transcende,
Numa rede de presenças e ausências,
Numa fuga para o ponto de partida:
Um perto que é tão longe, um longe aqui.
Uma ânsia de estar e de temer
A semente que de ser se surpreende,
As pedras que repetem as cadências
Da onda sempre nova e repetida
Que neste espaço curvo vem de ti.
José Saramago
(In OS POEMAS POSSÍVEIS, Editorial CAMINHO, Lisboa, 1981. 3ª edição)
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José Saramago
Carro de Boi
Carro de boi, priguiçoso . . .
puxado pur Pintadin
e seu pareia: o Mimoso!
Tenho viva a tua musga
na minha arrescordação .
As risca qui tu dexasse
pelas istrada isquisita
a istória qui tem iscrita
dos teus tempo no Sertão.
- Macha pra lá. . Mimoso! . .
Puxa o carro! Pintadin... -
U'a subida, u'a baxada,
as duas roda infincada
nas areia dos camin .
E quato legua pur dia .
Se tira mais, cansa o boi!
Essa macha demorada
papai cortô, já, não quis.
Meu avô foi tão filiz. . .
meu pobe pai já nao foi,
Vovó, tão santa, tão boa,
mandava tirá a canga
pra Pintadin discansá.
Meu avô tao carinhoso. . .
dava capim ao Mimoso,
era outo boi no oiá!
Patrão, patroa e carrero,
na sombra do ingazero .
Agua de chuva im marimba,
banho de cuia im caçimba
no rio do Putengi.
Rapadura, carne-seca,
comprada no Cariri .
Chego o tempo muderno:
o artomove, o avião.
O trem, essa besta-fera,
tarvez pra fazê fiasco,
toca fogo no panasco
das terra do meu Sertão
- oi... oi... -
O carro de boi parô
Pintadin saiu pastando
cum seu pareia: o Mimoso!
Minha avó e meu avô
im seu eterno reposo .
E lá na fazenda veia,
duas cavera branca
tã infeitando o camin:
de um lado morreu Mimoso!
Do outo lado: Pintadin!
ZE PRAXEDE (José Praxedes)
Nasceu em Natal e morreu no Rio de Janeiro. Era chamado o POETA VAQUEIRO, recitando poesias nas rádios do Nordeste, nos circos, nos teatros, na Festa da Mocidade, na Feira de São Cristóvão.
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José Praxedes
Tecendo a Manhã
1
Um galo sozinho não tece uma manhã:
ele precisará sempre de outros galos.
De um que apanhe esse grito que ele
e o lance a outro; de um outro galo
que apanhe o grito de um galo antes
e o lance a outro; e de outros galos
que com muitos outros galos se cruzem
os fios de sol de seus gritos de galo,
para que a manhã, desde uma teia tênue,
se vá tecendo, entre todos os galos.
Um galo sozinho não tece uma manhã:
ele precisará sempre de outros galos.
De um que apanhe esse grito que ele
e o lance a outro; de um outro galo
que apanhe o grito de um galo antes
e o lance a outro; e de outros galos
que com muitos outros galos se cruzem
os fios de sol de seus gritos de galo,
para que a manhã, desde uma teia tênue,
se vá tecendo, entre todos os galos.
2
E se encorpando em tela, entre todos,
se erguendo tenda, onde entrem todos,
se entretendendo para todos, no toldo
(a manhã) que plana livre de armação.
A manhã, toldo de um tecido tão aéreo
que, tecido, se eleva por si: luz balão.
(A Educação pela Pedra)
João Cabral de Melo Neto
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João Cabral de Melo Neto
Evocação do Recife
Recife
Não a Veneza americana
Não a Mauritsstad dos armadores das Índias Ocidentais
Não o Recife dos Mascates
Nem mesmo o Recife que aprendi a amar depois
— Recife das revoluções libertárias
Mas o Recife sem história nem literatura
Recife sem mais nada
Recife da minha infância
A rua da União onde eu brincava de chicote-queimado
e partia as vidraças da casa de dona Aninha Viegas
Totônio Rodrigues era muito velho e botava o pincenê
na ponta do nariz
Depois do jantar as famílias tomavam a calçada com cadeiras
mexericos namoros risadas
A gente brincava no meio da rua
Os meninos gritavam:
Coelho sai!
Não sai!
A distância as vozes macias das meninas politonavam:
Roseira dá-me uma rosa
Craveiro dá-me um botão
(Dessas rosas muita rosa
Terá morrido em botão...)
De repente
nos longos da noite
um sino
Uma pessoa grande dizia:
Fogo em Santo Antônio!
Outra contrariava: São José!
Totônio Rodrigues achava sempre que era são José.
Os homens punham o chapéu saíam fumando
E eu tinha raiva de ser menino porque não podia ir ver o fogo.
Rua da União...
Como eram lindos os montes das ruas da minha infância
Rua do Sol
(Tenho medo que hoje se chame de dr. Fulano de Tal)
Atrás de casa ficava a Rua da Saudade...
...onde se ia fumar escondido
Do lado de lá era o cais da Rua da Aurora...
...onde se ia pescar escondido
Capiberibe
— Capiberibe
Lá longe o sertãozinho de Caxangá
Banheiros de palha
Um dia eu vi uma moça nuinha no banho
Fiquei parado o coração batendo
Ela se riu
Foi o meu primeiro alumbramento
Cheia! As cheias! Barro boi morto árvores destroços redemoinho sumiu
E nos pegões da ponte do trem de ferro
os caboclos destemidos em jangadas de bananeiras
Novenas
Cavalhadas
E eu me deitei no colo da menina e ela começou
a passar a mão nos meus cabelos
Capiberibe
— Capiberibe
Rua da União onde todas as tardes passava a preta das bananas
Com o xale vistoso de pano da Costa
E o vendedor de roletes de cana
O de amendoim
que se chamava midubim e não era torrado era cozido
Me lembro de todos os pregões:
Ovos frescos e baratos
Dez ovos por uma pataca
Foi há muito tempo...
A vida não me chegava pelos jornais nem pelos livros
Vinha da boca do povo na língua errada do povo
Língua certa do povo
Porque ele é que fala gostoso o português do Brasil
Ao passo que nós
O que fazemos
É macaquear
A sintaxe lusíada
A vida com uma porção de coisas que eu não entendia bem
Terras que não sabia onde ficavam
Recife...
Rua da União...
A casa de meu avô...
Nunca pensei que ela acabasse!
Tudo lá parecia impregnado de eternidade
Recife...
Meu avô morto.
Recife morto, Recife bom, Recife brasileiro
como a casa de meu avô.
Manuel Bandeira
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Manuel Bandeira
Uma Didática da Invenção
I
Para apalpar as intimidades do mundo é preciso saber:
a) Que o esplendor da manhã não se abre com
faca
b) 0 modo como as violetas preparam o dia
para morrer
c) Por que é que as borboletas de tarjas
vermelhas têm devoção por túmulos
d) Se o homem que toca de tarde sua existência
num fagote, tem salvação
e) Que um rio que flui entre 2 jacintos carrega
mais ternura que um rio que flui entre 2
lagartos
f) Como pegar na voz de um peixe
g) Qual o lado da noite que umedece primeiro.
Etc.
etc.
etc.
Desaprender 8 horas por dia ensina os princípios.
IV
No Tratado das Grandezas do Ínfimo estava
escrito:
Poesia é quando a tarde está competente para
Dálias.
É quando
Ao lado de um pardal o dia dorme antes.
Quando o homem faz sua primeira lagartixa
É quando um trevo assume a noite
E um sapo engole as auroras
IX
Para entrar em estado de árvore é preciso
partir de um torpor animal de lagarto às
3 horas da tarde, no mês de agosto.
Em 2 anos a inércia e o mato vão crescer
em nossa boca.
Sofreremos alguma decomposição lírica até
o mato sair na voz.
Hoje eu desenho o cheiro das árvores.
IX
O rio que fazia uma volta atrás de nossa casa
era a imagem de um vidro mole que fazia uma
volta atrás de casa.
Passou um homem depois e disse: Essa volta
que o rio faz por trás de sua casa se chama
enseada.
Não era mais a imagem de uma cobra de vidro
que fazia uma volta atrás de casa.
Era uma enseada.
Acho que o nome empobreceu a imagem.
Manoel de Barros
Do "O Livro das Ignorãnças"
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Manoel de Barros
Geni e o Zepelim
De tudo que é nego torto
Do mangue e do cais do porto
Ela já foi namorada
O seu corpo é dos errantes
Dos cegos, dos retirantes
É de quem não tem mais nada
Dá-se assim desde menina
Na garagem, na cantina
Atrás do tanque, no mato
É a rainha dos detentos
Das loucas, dos lazarentos
Dos moleques do internato
E também vai amiúde
Com os velhinhos sem saúde
E as viúvas sem porvir
Ela é um poço de bondade
E é por isso que a cidade
Vive sempre a repetir
Joga pedra na Geni
Joga pedra na Geni
Ela é feita pra apanhar
Ela é boa de cuspir
Ela dá pra qualquer um
Maldita Geni
Um dia surgiu, brilhante
Entre as nuvens, flutuante
Um enorme zepelim
Pairou sobre os edifícios
Abriu dois mil orifícios
Com dois mil canhões assim
A cidade apavorada
Se quedou paralisada
Pronta pra virar geléia
Mas do zepelim gigante
Desceu o seu comandante
Dizendo - Mudei de idéia
- Quando vi nesta cidade
- Tanto horror e iniqüidade
- Resolvi tudo explodir
- Mas posso evitar o drama
- Se aquela formosa dama
- Esta noite me servir
Essa dama era Geni
Mas não pode ser Geni
Ela é feita pra apanhar
Ela é boa de cuspir
Ela dá pra qualquer um
Maldita Geni
Mas de fato, logo ela
Tão coitada e tão singela
Cativara o forasteiro
O guerreiro tão vistoso
Tão temido e poderoso
Era dela, prisioneiro
Acontece que a donzela
- e isso era segredo dela
Também tinha seus caprichos
E a deitar com homem tão nobre
Tão cheirando a brilho e a cobre
Preferia amar com os bichos
Ao ouvir tal heresia
A cidade em romaria
Foi beijar a sua mão
O prefeito de joelhos
O bispo de olhos vermelhos
E o banqueiro com um milhão
Vai com ele, vai Geni
Vai com ele, vai Geni
Você pode nos salvar
Você vai nos redimir
Você dá pra qualquer um
Bendita Geni
Foram tantos os pedidos
Tão sinceros, tão sentidos
Que ela dominou seu asco
Nessa noite lancinante
Entregou-se a tal amante
Como quem dá-se ao carrasco
Ele fez tanta sujeira
Lambuzou-se a noite inteira
Até ficar saciado
E nem bem amanhecia
Partiu numa nuvem fria
Com seu zepelim prateado
Num suspiro aliviado
Ela se virou de lado
E tentou até sorrir
Mas logo raiou o dia
E a cidade em cantoria
Não deixou ela dormir
Joga pedra na Geni
Joga bosta na Geni
Ela é feita pra apanhar
Ela é boa de cuspir
Ela dá pra qualquer um
Maldita Geni
Composição: Chico Buarque
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Chico Buarque
13 de abril de 2009
A Coisa
Tinha cabeça de ponte
Cabelo de relógio
Testa de ferro
Cara-metade
Ouvidos de mercador.
Um olho d'água
Outro da rua
Pestana de violão
Pupilas do Sr. Reitor
Nariz de cera
Boca de siri
Vários dentes de alho
E um de coelho
Língua de trapo
Barba-de-milho
E costeletas de porco.
Tinha garganta de montanha
Um seio da pátria
Outro da sociedade
Braços de mar
Cotovelos de estrada
Uma mão-de-obra
Outra mão boba
Palmas de coqueiros
Dois dedos de prosa
Um do destino
E unha de fome.
Tinha corpo de delito
Tronco de árvore
Algumas juntas comerciais
E outras de bois.
Barriga de revisão
Umbigo de laranja
Cintura de vespa
Costas d'África
Pernas de mesa
Canela em pó
Um pé-de-moleque
Outro de vento
E plantas de arquitetura
Cabelo de relógio
Testa de ferro
Cara-metade
Ouvidos de mercador.
Um olho d'água
Outro da rua
Pestana de violão
Pupilas do Sr. Reitor
Nariz de cera
Boca de siri
Vários dentes de alho
E um de coelho
Língua de trapo
Barba-de-milho
E costeletas de porco.
Tinha garganta de montanha
Um seio da pátria
Outro da sociedade
Braços de mar
Cotovelos de estrada
Uma mão-de-obra
Outra mão boba
Palmas de coqueiros
Dois dedos de prosa
Um do destino
E unha de fome.
Tinha corpo de delito
Tronco de árvore
Algumas juntas comerciais
E outras de bois.
Barriga de revisão
Umbigo de laranja
Cintura de vespa
Costas d'África
Pernas de mesa
Canela em pó
Um pé-de-moleque
Outro de vento
E plantas de arquitetura
COMO A COISA SE VESTIA
A Coisa usava
Carapuça de política
Lentes de Medicina
Camisa de onze varas
Com colarinho de chope
Fraldas de montanha
Punhos de campeão
E botões de rosa
Tinha gravata de "jiu-jitsu"
Um terno olhar
De pano do rosto
Com uma manga espada
E outra manganão
Tinha um capote de bisca
Usava anéis de Saturno
Luvas de contrato
"Shorts" cinematográficos
De fazenda agrícola
Bota-fora
Com saltos das sete quedas
E cordão carnavalesco
Usava liga metropolitana
Uma meia-lua
Outra meia-noite
Além do que se penteava
Com um pente de balas
E se envolvia toda
Num lençol d'água.
O MOVIMENTO DA COISA
Tinha porte de armas
Ares da serra
Tic de relógio
Movimento revolucionário
Andar de edifício
Animação cinematográfica
Passo de montanha
Ação judicial
Cadência musical
Marcha carnavalesca
Corrida de aço
Parada militar
Dava saltos de sapato
Soco no sereno
Pontapé na lua
Pulos do nove
E dançava na corda bamba
A dança de São Guido.
A AUTÓPSIA DA COISA
Tinha espírito de porco
Cérebro mecânico
E miolo de pão
Coração materno
Maus bofes
Estomago forrado
Bacia do Amazonas
Tripas de Judas
Nervos de aço
Sangue de barata
Artérias da cidade
E ossos do ofício.
O CARDÁPIO DA COISA
Refeição Matinal
Xá da Pérsia
Café concerto
Leite de colônia
Pão nosso de cada dia
Manteiga derretida
Maçã do rosto
Ovo de Colombo
Sal da terra.
Xá da Pérsia
Café concerto
Leite de colônia
Pão nosso de cada dia
Manteiga derretida
Maçã do rosto
Ovo de Colombo
Sal da terra.
Almoço
Arraia miúda
Pés-de-galinha
Pastéis tipográficos
Brotinhos (cozidos em fogo-fátuo)
Suco pancreático.
Sobremesa
Suspiros de amor
Balas Dum-Dum
Laranja da China.
Ao Deitar
Chá de sumiço
Fumo da Arrogância.
Chá de sumiço
Fumo da Arrogância.
ONDE A COISA MORAVA
A Coisa morava
Numa casa-forte
Construída com paredes de grevistas
Onde o diabo perdeu as botas.
Tinha um quarto crescente
(Com um leito de rio)
E vários de hora.
Na Copa do Mundo
Havia uma cortina de ferro
E outras de fumaça.
O chão era de tacos de bilhar.
E o teto tinha uma telha de menos.
Uma mesa redonda
Uma cadeira elétrica
E várias dos quadris.
A casa era iluminada por velas de navio
Tinha um toca-discos voadores
E era adornada com telas de arame
Um espelho de virtudes
Vários vasos de guerra
E um vaso de sangue
Com a flor dos anos.
Millôr Fernandes
Texto extraído do livro "Tempo e Contratempo", Edições O Cruzeiro - Rio de Janeiro, 1954, pág.13.
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Millôr Fernandes
Vou-me Embora pra Pasárgada
Vou-me embora pra Pasárgada
Lá sou amigo do rei
Lá tenho a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada
Vou-me embora pra Pasárgada
Aqui eu não sou feliz
Lá a existência é uma aventura
De tal modo inconseqüente
Que Joana a Louca de Espanha
Rainha e falsa demente
Vem a ser contraparente
Da nora que nunca tive
E como farei ginástica
Andarei de bicicleta
Montarei em burro brabo
Subirei no pau-de-sebo
Tomarei banhos de mar!
E quando estiver cansado
Deito na beira do rio
Mando chamar a mãe-d'água
Pra me contar as histórias
Que no tempo de eu menino
Rosa vinha me contar
Vou-me embora pra Pasárgada
Em Pasárgada tem tudo
É outra civilização
Tem um processo seguro
De impedir a concepção
Tem telefone automático
Tem alcalóide à vontade
Tem prostitutas bonitas
Para a gente namorar
E quando eu estiver mais triste
Mas triste de não ter jeito
Quando de noite me der
Vontade de me matar
— Lá sou amigo do rei —
Terei a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada.
Manuel Bandeira
Texto extraído do livro "Bandeira a Vida Inteira", Editora Alumbramento – Rio de Janeiro, 1986, pág. 90
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Manuel Bandeira
Lucidez profana
Para todos os artistas
Kátia Drummond
Deixe esse homem nascer em paz
pois esse homem traz na natureza
a essência de fluir toda a beleza
a essência de fluir toda a beleza
que os homens tolos nem percebem mais.
Deixe esse homem crescer em paz
pois esse homem traz na consciência
a lucidez profana da inocência
que a gente grande não conhece mais.
Deixe esse homem viver em paz
pois esse homem traz nas mãos atadas
o mágico poder próprio das fadas
que os nossos filhos já não trazem mais.
Deixe esse homem morrer em paz
pois esse homem traz na luta e na conquista
Deixe esse homem crescer em paz
pois esse homem traz na consciência
a lucidez profana da inocência
que a gente grande não conhece mais.
Deixe esse homem viver em paz
pois esse homem traz nas mãos atadas
o mágico poder próprio das fadas
que os nossos filhos já não trazem mais.
Deixe esse homem morrer em paz
pois esse homem traz na luta e na conquista
a alma agonizante do artista
que a sua vida não agüenta mais.
que a sua vida não agüenta mais.
Kátia Drummond
Do livro "Lucidez Profana".
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Catar Feijão
Catar feijão se limita com escrever:
jogam-se os grãos na água do alguidar
e as palavras na da folha de papel;
e depois, joga-se fora o que boiar.
Certo, toda palavra boiará no papel,
água congelada, por chumbo seu verbo:
pois para catar esse feijão, soprar nele,
e jogar fora o leve e oco, palha e eco.
Ora, nesse catar feijão entra um risco:
o de que entre os grãos pesados entre
um grão qualquer, pedra ou indigesto,
um grão imastigável, de quebra dente.
Certo não, quando ao catar palavras:
a pedra dá à frase seu grão mais vivo:
obstrui a leitura fluviante, flutual,
açula a atenção, isca-a com risco.
João Cabral de Melo Neto
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