4 de janeiro de 2009

Motivo


Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.

Irmão das coisas fugidias,
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.

Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou se desfaço,
— não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.

Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno e asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
— mais nada.


Cecília Meireles
De Viagem (1939)

28 de dezembro de 2008

Receita de Ano Novo


Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?)

Não precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumidas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.

Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.


Carlos Drummond de Andrade

Cântico dos Cânticos de Salomão


O valor do poético, do romântico, do delicado, é fundamental no Amor, é aquilo que na verdade lhe dá vida e esplendor.
O Cântico dos Cânticos, pelo que parece, foi escrito há uns 3000 anos atrás, nele se relata na verdade, não uma história e sim um fluxo de sentimentos entre dois amantes legendários: o rei Salomão e a rainha de Sabá.
O Cântico dos Cânticos é um dos livros sagrados da Bíblia, contrastando muitos de seus versículos - clara e deliciosamente eróticos - com os ensinamentos repressivos sobre o amor e o sexo que foram ditados vários séculos depois, e em alguns casos até o presente por várias religiões auto-intituladas de cristãs.

Esta obra é um dos livros mais curtos da Bíblia, apenas cinco páginas e somente 117 versículos, nos quais falam intercaladamente as duas personagens.

Vejamos alguns fragmentos selecionados:
 

- Ela: "Beije-me ele com os beijos da sua boca; pois melhor é seu amor do que o vinho"... "O meu amado é para mim um ramalhete de mirra; morará entre meus seios"... "Como um ramalhete de hena nas vinhas de En-Gedi, é para mim o meu amado"... "Eu sou a rosa de Sarom, o lírio dos vales"... "Quão formoso és, ó amado meu! Quão amável és! O nosso leito é viçoso"... "Qual a macieira entre as árvores do bosque, tal é o meu amado entre os jovens. Desejo muito a sua sombra, e debaixo dela me assento. O seu fruto é doce ao meu paladar".

- Ele: "Como és formosa, ó amiga minha! Como és formosa! Os teus olhos são como os das pombas"... "Qual o lírio entre os espinhos, tal é a minha amada entre as donzelas"... "A figueira já deu seus figos, e as vides em flor exalam o seu aroma. Levanta-te, amada minha, formosa minha, e vem"... "Pomba minha, que andas pelas fendas das penhas, no oculto das ladeiras, mostra-me a tua face, faze-me ouvir a tua voz, pois a tua voz é doce, e o teu rosto formoso".

- Ela: "Eu dormia, mas meu coração velava. Ouvi! A voz do meu amado, que está batendo: Abre-me, minha irmã, amada minha, pomba minha, minha imaculada. A minha cabeça está cheia de orvalho, os meus cabelos das gotas da noite"... "O meu amado meteu a mão pela fresta da porta, e as minhas entranhas estremeceram por amor dele"... "Eu me levantei para abrir ao meu amado, e as minhas mãos destilavam mirra sobre a maçaneta da fechadura" (Veja-se de que maneira deliciosamente delicada fala-se da relação sexual entre eles e dos sentimentos da mulher nesse maravilhoso momento).

- Ele: "Os teus olhos são como os das pombas, e brilham através do teu véu. O teu cabelo é como o rebanho de cabras que pastam no monte Gileade. Os teus dentes, são como o rebanho das ovelhas tosquiadas, que sobem o lavadouro, e das quais todas produzem gêmeos, e nenhuma há estéril entre elas"... "Os teus lábios são como um fio de escarlate, a tua boca é doce"... "Os teus dois seios são como dois filhos gêmeos da gazela, que se apascentam entre os lírios"... "Tu és toda formosa, amada minha; em ti não há defeito"... "Que belos são os teus amores, ó minha irmã, noiva minha! Quão melhores são os teus amores do que o vinho, e o aroma dos teus bálsamos do que o de todas as especiarias!"... "Favos de mel manam dos teus lábios, noiva minha! Mel e leite estão debaixo da tua língua, e o perfume dos teus vestidos é como a fragrância do Líbano"... "Os teus renovos são um pomar de romãs, com frutos excelentes, com a hena e com o nardo; o açafrão, o cálamo e a canela, com toda a sorte de árvores de incenso; a mirra e o aloés, com todas as principais especiarias"... "És a fonte dos jardins, poço das águas vivas, ribeiros que correm do Líbano".

- Ela: "O meu amado é alvo e rosado, o primeiro entre dez mil"... "A sua cabeça é como o ouro mais apurado, os seus cabelos são crespos, pretos como o corvo"... "Os seus olhos são como os das pombas junto às correntes das águas, lavados em leite, postos em engaste"... "As suas faces são como um canteiro de bálsamo, como colinas de ervas aromáticas. Os seus lábios são como os lírios que gotejam mirra"... "As suas mãos são como anéis de ouro que têm engastadas as turquesas. O seu ventre é como alvo marfim, coberto de safiras"... "As suas pernas são como colunas de mármore, fundadas sobre bases de ouro puro"... "A sua boca é muitíssimo doce; ele é totalmente desejável. Tal é o meu amado, e tal o meu amigo, ó filhas de Jerusalém".

- Ele: "Quão formosos são teus pés nos sapatos, ó filha do príncipe! As voltas das tuas coxas são como jóias, trabalhadas por mãos de artista"... "O teu umbigo é como uma taça redonda a que não falta bebida. O teu ventre é como um monte de trigo, cercado de lírios"... "Os teus dois seios são como dois filhos gêmeos da gazela"... "O teu pescoço é como a torre de marfim. Os teus olhos são como piscinas de Hesbon. O teu nariz é como a torre do Líbano, que olha para Damasco"... "A tua cabeça é como o monte Carmelo. Os cabelos da tua cabeça são como a púrpura; o rei está preso pelas suas tranças"... "Quão formosa, e quão adorável és, ó amor em delícias"... "A tua estatura é semelhante à palmeira, e os teus seios aos cachos de uvas"... "Dizia eu: Subirei à palmeira; pegarei em seus frutos. Sejam os teus seios como os cachos da vide, e o aroma da tua respiração como o das maçãs, e os teus beijos como o bom vinho, que se bebe suavemente e faz com que falem os lábios dos que dormem" (Os seios da mulher amada sempre foram motivos de intensa atração para os homens, mas pouquíssimos os incluíram na arte poética; talvez o peso do puritanismo e o temor de serem acusados de pornográficos, tem impedido que a inspiração passasse para o papel; contudo, Salomão conseguiu fazê-lo há trinta séculos com uma pureza de sentimentos inigualável).

Ele era o esposo, o amante, o amigo, o irmão; ela era a esposa, a amante, a amiga, a irmã. Os dois fundiam-se num só como o grão de pólen e o óvulo o fazem no transcendente mistério da fecundação, transformando-se depois na vibrante realidade que é o fruto.

27 de dezembro de 2008

Reich


"A vida brota de milhares de fontes vibrantes, entrega-se a todos que a agarram, recusa-se a ser expressa em frases tediosas, aceita apenas as ações transparentes, as palavras verdadeiras e o prazer do amor."

Wilhelm Reich

22 de dezembro de 2008

Saudação ao Juazeiro do Norte


Mesmo sem eu ter estudo
sem ter do colégio o bafejo,
Juazeiro, eu te saúdo
com o meu verso sertanejo
Cidade de grande sorte,
de Juazeiro do Norte
tens a denominação,
mas teu nome verdadeiro
será sempre Juazeiro
do Padre Cícero Romão.
O Padre Cícero Romão
que, vocação celeste
foi, com direito e razão
o Apóstolo do Nordeste.
Foi ele o teu protetor
trabalhou com grande amor,
lutando sempre de pé
quando vigário daqui,
ele semeou em ti
a sementeira da fé.
E com milagre estupendo
a sementeira nasceu,
foi crescendo, foi crescendo
Muito ao longe se estendeu
com a virtude regada
foi mais tarde transformada
em árvore frondosa e rica.
E com luz medianeira
inda hoje a sementeira
cresce, flora e frutifica.
Juazeiro, Juazeiro
jamais a adversidade
extinguirá o luzeiro
da tua comunidade.
morreu o teu protetor,
porém a crença e o amor
vive em cada coração
e é com razão que me expresso
tu deves o teu progresso
ao Padre Cícero Romão
Aquele ministro amado
que tanto favor nos fez,
conselheiro consagrado
e o doutor do camponês.
contradizer não podemos
E jamais descobriremos
O prodígio que ele tinha:
Segundo a popular crença,
curava qualquer doença,
com malva branca e jarrinha.
Juazeiro, Juazeiro
tua vida e tua história
para o teu povo romeiro
merece um padrão de glória.
De alegria tu palpitas,
ao receber as visitas
de longe, de muito além,
Grande glória tu viveste!
Do nosso caro Nordeste
tu és a Jerusalém.
Sempre me lembro e relembro,
não hei de me deslembrar:
O dia 2 de Novembro,
tua festa espetacular
pois vem de muitos Estados
os carros superlotados
conduzindo os passageiros
e jamais será feliz
aquele que contradiz
a devoção dos romeiros.
No lugar onde se achar
um fervoroso romeiro,
ai daquele que falar,
contra ou mal, do Juazeiro.
Pois entre os devotos crentes,
velhos, moços e inocentes,
a piedade é comum,
porque o santo reverendo
se encontra ainda vivendo
no peito de cada um.
Tu, Juazeiro, és o abrigo
da devoção e da piedade.
Eu te louvo e te bendigo
por tua felicidade,
me sinto bem, quando vejo
que tu és do sertanejo
a cidade predileta.
Por tudo quanto tu tens
recebe estes parabéns
do coração de um poeta.

Fim


Patativa do Assaré

Aqui morava um rei


"Aqui morava um rei quando eu menino
Vestia ouro e castanho no gibão,
Pedra da Sorte sobre meu Destino,
Pulsava junto ao meu, seu coração.

Para mim, o seu cantar era Divino,
Quando ao som da viola e do bordão,
Cantava com voz rouca, o Desatino,
O Sangue, o riso e as mortes do Sertão.

Mas mataram meu pai. Desde esse dia
Eu me vi, como cego sem meu guia
Que se foi para o Sol, transfigurado.

Sua efígie me queima. Eu sou a presa.
Ele, a brasa que impele ao Fogo acesa
Espada de Ouro em pasto ensanguentado."


Ariano Suassuna

O Mundo do Sertão


Diante de mim, as malhas amarelas
do mundo, Onça castanha e destemida.
No campo rubro, a Asma azul da vida
à cruz do Azul, o Mal se desmantela.

Mas a Prata sem sol destas moedas
perturba a Cruz e as Rosas mal perdidas;
e a Marca negra esquerda inesquecida
corta a Prata das folhas e fivelas.

E enquanto o Fogo clama a Pedra rija,
que até o fim, serei desnorteado,
que até no Pardo o cego desespera,

O Cavalo castanho, na cornija,
tenha alçar-se, nas asas, ao Sagrado,
ladrando entre as Esfinges e a Pantera.



Ariano Suassuna

21 de dezembro de 2008

O Próprio Ser eu Canto


O próprio ser eu canto:
Canto a pessoa em si, em separado
- embora use a palavra Democracia
e a expressão Massa.

Eu canto o Corpo
Da cabeça aos pés:
Nem só o cérebro
Nem só a fisionomia
Tem valor para a Musa
- digo que a forma completa é muito mais valiosa,
e tanto a Fêmea quanto o Macho
eu canto.

A vida plena de paixão,
Força e pulsam,
Preparada para as ações mais livres
Com suas leis divinas
- O Homem Moderno
eu canto.
*
Minha voz sai em busca do meus olhos não conseguem alcançar,
Com uma virada da língua açambarco mundos e volumes de mundos.

O discurso é gêmeo de minha visão... é inconstante para poder se medir.
Está sempre me provocando,
Diz com sarcasmo, Walt, você já compreende o suficiente... por que então
Não bota tudo pra fora ?

Ora, vamos, não vou ser atormentado... você concebe articulações demais.

*
O dito e o escrito não provam quem sou,
Traga a plena prova e todo o resto em meu rosto,
Com meus lábios calados confundo o maior dos céticos.


Walt Whitman

20 de dezembro de 2008

Escova


Eu tinha vontade de fazer como os dois homens que vi sentados na terra escovando osso. 
No começo achei que aqueles homens não batiam bem.
Porque ficavam sentados na terra o dia inteiro escovando osso.
Depois aprendi que aqueles homens eram arqueólogos.
E que eles faziam o serviço de escovar o osso por amor.
E que eles queriam encontrar nos ossos vestígios de antigas civilizações que estariam enterrados por séculos naquele chão.
Logo pensei de escovar palavras.
Porque eu havia lido em algum lugar que as palavras eram conchas de clamores antigos.
Eu queria ir atrás dos clamores antigos que estariam guardados dentro das palavras.
Eu já sabia também que as palavras possuem no corpo muitas oralidades remontadas e muitas significâncias remontadas.
Eu queria então escovar as palavras para escutar o primeiro esgar de cada uma.
Para escutar os primeiros sons, mesmo que ainda bígrafos.
Comecei a fazer isso sentado em minha escrivaninha.
Passava horas inteiras, dias inteiros fechados no quarto, trancado, a escovar palavras.
Logo a turma perguntou: o que eu fazia o dia inteiro trancado naquele quarto?
Eu respondi a eles, meio entresonhado, que eu estava escovando palavras.
Eles acharam que eu não batia bem.
Então eu joguei a escova fora.


Manoel de Barros

O casaco


Um homem estava anoitecido.
Se sentia por dentro um trapo social,
igual se, por fora, usasse um casaco
rasgado e sujo.
Tentou sair da angústia,
isto ser, ele queria
jogar o casaco rasgado e sujo no lixo
Ele queria amanhecer.


Manoel de Barros