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21 de março de 2011

Só Dez Por Cento é Mentira


Finalmente consegui o documentário sobre Manoel de Barros e fico muito feliz de poder compartilhar com todos.

Segue o link para Download:

10 de março de 2011

Pedido quase uma prece


Senhor, ajudai-nos a construir a nossa casa
Com janelas de aurora e árvores no nosso quintal
Árvores que na primavera fiquem cobertas de flores
E ao crepúsculo fiquem cinzentas como a roupa dos pescadores.


O que desejo é apenas uma casa. Em verdade,
Não é necessário que seja azul, nem que tenha cortinas de rendas.
Em verdade, nem é necessário que tenha cortinas.
Quero apenas uma casa em uma rua sem nome.


Sem nome, porém honrada, Senhor. Só não dispenso a árvore,
Porque é a mais bela coisa que nos destes e a menos amarga.
Quero de minha janela sentir os ventos pelos caminhos, e ver o sol.
Dourando os cabelos negros e os olhos da minha amada.


Também a minha amada não dispenso, meu Senhor.
Em verdade ela é a parte mais importante deste poema.
Em verdade vos digo, e bastante constrangido,
Que sem ela a casa também eu não queria, e voltava pra pensão.


Ao menos na pensão, eu tenho meu amigos
E a dona é sempre uma senhora do interior que tem uma filha alegre.
Eu adoro menina alegre, e daí podeis muito bem deduzir
Que para elas eu corro nas minhas horas de aflição.


Nas minhas solidões de amor e nas minhas solidões do pecado
Sempre fujo para elas, quando não fujo delas, de noite,
E vou procurar prostitutas. Ó Senhor, vós bem sabeis
Como amarga a vida de um homem o carinho das prostitutas!
Vós sabeis com tudo amarga naquelas vestes amassadas
Por tantas mãos truculentas ou tímidas ou cabeludas
Vós bem sabeis tudo isso, e portanto permiti
Que eu continue sonhando com a minha casinha azul.


Permiti que eu sonhe com a minha amada também, porque:
- De que me vale ter casa sem ter mulher amada dentro?
Permiti que eu sonhe com uma que ame andar sobre os montes descalça
E quando me vier beijar faça-o como se vê nos cinemas...


O ideal seria uma que amasse fazer comparações de nuvens com vestidos, e peixes com avião;
Que gostasse de passarinho pequeno, gostasse de escorregar no corrimão da escada
E na sombra das tardes viesse pousar
Como a brisa nas varandas abertas


O ideal seria uma menina boba: que gostasse de ver folha cair de tarde...
Que só pensasse coisas leves que nem existem na terra,
E ficasse assustada quando ao cair da noite
Um homem lhe dissesse palavras misteriosas...
O ideal seria uma criança sem dono, que aparecesse como nuvem,
Que não tivesse destino nem nome – senão que um sorriso triste
E que nesse sorriso estivessem encerrados
Toda a timidez e todo o espanto das crianças que não têm rumo...


Senhor, ajudai-nos a construir a nossa casa
Com janelas de aurora e árvores no nosso quintal
Árvores que na primavera fiquem cobertas de flores
E ao crepúsculo fiquem cinzentas como a roupa dos pescadores.


Manoel de Barros

3 de outubro de 2010

Soberania


Um dia eu também sento ai... Adorei a foto amor!


Naquele dia, no meio do jantar, eu contei que
tentara pegar na bunda do vento — mas o rabo
do vento escorregava muito e eu não consegui pegar.
Eu teria sete anos. 
A mãe fez um sorriso carinhoso para mim e não disse nada. 
Meus irmãos deram gaitadas me gozando. 
O pai ficou preocupado e disse que eu tivera um vareio da imaginação.
Mas que esses vareios acabariam com os estudos.
E me mandou estudar em livros. 
Eu vim. E logo li alguns tomos havidos na biblioteca do Colégio.
E dei de estudar pra frente. 
Aprendi a teoria das idéias e da razão pura. 
Especulei filósofos e até cheguei aos eruditos. 
Aos homens de grande saber. 
Achei que os eruditos nas suas altas abstrações 
se esqueciam das coisas simples da terra. 
Foi aí que encontrei Einstein (ele mesmo— o Alberto Einstein). 
Que me ensinou esta frase:
A imaginação é mais importante do que o saber.
Fiquei alcandorado! 
E fiz uma brincadeira. 
Botei um pouco de inocência na erudição. 
Deu certo. Meu olho começou a ver de novo as pobres coisas do
chão mijadas de orvalho. 
E vi as borboletas. 
E meditei sobre as borboletas. 
Vi que elas dominam o mais leve sem precisar de ter motor nenhum no
corpo. (Essa engenharia de Deus!) 
E vi que elas podem pousar nas flores e nas pedras sem magoar as
próprias asas. 
E vi que o homem não tem soberania
nem pra ser um bentevi.

Manoel de Barros

Texto extraído do livro "Memórias Inventadas - A Terceira Infância", Editora Planeta - São Paulo, 2008, com iluminuras de Martha Barros.

19 de setembro de 2010

Sabiá com trevas


IX

O poema é antes de tudo um inutensílio.

Hora de iniciar algum
convém se vestir roupa de trapo.

Há quem se jogue debaixo de carro
nos primeiros instantes.

Faz bem uma janela aberta
uma veia aberta.

Pra mim é uma coisa que serve de nada o poema
enquanto vida houver.

Ninguém é pai de um poema sem morrer.


VI

Há quem receite a palavra ao ponto de osso, oco;
ao ponto de ninguém e de nuvem.
Sou mais a palavra com febre, decaída, fodida, na
sarjeta.
Sou mais a palavra ao ponto de entulho.
Amo arrastar algumas no caco de vidro, envergá-las
pro chão, corrompê-las
até que padeçam de mim e me sujem de branco.
Sonho exercer com elas o ofício de criado:
usá-las como quem usa brincos.



Manoel de Barros

Do livro: "Arranjos para Assobio", Editora Record, 1998, RJ

1 de agosto de 2010

Canção do ver

Tela "Menino com Pássaro", 1957 Cândido Portinari

Por viver muitos anos dentro do mato
Moda ave
O menino pegou um olhar de pássaro-
Contraiu visão fontana.
Por forma que ele enxergava as coisas
Por igual
como os pássaros enxergam.
As coisas todas inominadas.
Água não era ainda a palavra água.
Pedra não era ainda a palavra pedra
E tal.
As palavras eram livres de gramáticas e
Podiam ficar em qualquer posição.
Por forma que o menino podia inaugurar.
Podia dar as pedras costumes de flor.
Podia dar ao canto formato de sol.
E, se quisesse caber em um abelha, era
só abrir a palavra abelha e entrar dentro
dela.
Como se fosse infância da língua.


Manoel de Barros

(Poemas Rupestres)

Árvore


Um passarinho pediu a meu irmão para ser sua árvore.
Meu irmão aceitou de ser a árvore daquele passarinho.
No estágio de ser essa árvore, meu irmão aprendeu de
sol, de céu e de lua mais do que na escola.
No estágio de ser árvore meu irmão aprendeu para santo
mais do que os padres lhes ensinavam no internato.
Aprendeu com a natureza o perfume de Deus
seu olho no estágio de ser árvore aprendeu melhor
o azul
E descobriu que uma casa vazia de cigarra esquecida
no tronco das árvores só serve pra poesia.
No estágio de ser árvore meu irmão descobriu que as árvores são vaidosas.
Que justamente aquela árvore na qual meu irmão se transformara,
envaidecia-se quando era nomeada para o entardecer dos pássaros
e tinha ciúmes da brancura que os líriso deixavam nos brejos.
Meu irmão agradecia a Deus aquela permanência em árvore porque fez amizade com muitas borboletas.


Manoel de Barros

(Ensaios Fotográficos)

Aprendimentos


O filósofo Kierkegaard me ensinou que cultura é
o caminho que o homem percorre para se conhecer.
Sócrates fez o seu caminho de cultura e ao fim
falou que só sabia que não sabia de nada. 
Não tinha as certezas científicas. 
Mas que aprendera coisas di-menor com a natureza. 
Aprendeu que as folhas das árvores servem para nos ensinar a cair sem
alardes. 
Disse que fosse ele caracol vegetado
sobre pedras, ele iria gostar. Iria certamente
aprender o idioma que as rãs falam com as águas
e ia conversar com as rãs. 
E gostasse mais de ensinar que a exuberância maior está nos insetos
do que nas paisagens. 
Seu rosto tinha um lado de ave. 
Por isso ele podia conhecer todos os pássaros
do mundo pelo coração de seus cantos. 
Estudara nos livros demais. 
Porém aprendia melhor no ver,
no ouvir, no pegar, no provar e no cheirar. 
Chegou por vezes de alcançar o sotaque das origens.
Se admirava de como um grilo sozinho, um só pequeno
grilo, podia desmontar os silêncios de uma noite!
Eu vivi antigamente com Sócrates, Platão, Aristóteles –
esse pessoal. 
Eles falavam nas aulas: Quem se
aproxima das origens se renova. 
Píndaro falava pra mim que usava todos os fósseis linguísticos que
achava para renovar sua poesia. 
Os mestres pregavam que o fascínio poético vem das raízes da fala.
Sócrates falava que as expressões mais eróticas
são donzelas. 
E que a Beleza se explica melhor por não haver razão nenhuma nela. 
O que mais eu sei sobre Sócrates é que ele viveu uma ascese de mosca.


Manoel de Barros

Do livro: "Memórias Inventadas - As infâncias de Manoel de Barros". 

10 de abril de 2010

Peraltagem


Tela "Dançando ao Vento" , Martha Barros

O canto distante da seriema encompridava a tarde.
E porque a tarde ficasse mais comprida a gente
sumia dentro dela.
E quando o grito da mãe nos alcançava a gente
já estava do outro lado do rio.
O pai nos chamou pelo berrante.
Na volta fomos encostando pelas paredes da casa pé
ante pé.
Com receio de um carão do pai.
Logo a tosse do vô acordou o silêncio da casa.
Mas não apanhamos nem.
E nem levamos carão nem.
A mãe só que falou que eu iria viver leso
fazendo só essas coisas.
O pai completou: ele precisa de ver outras
coisas além de ficar ouvindo só o canto dos
pássaros.
E a mãe disse mais: esse menino vai passar
a vida enfiando água no espeto!
Foi quase.

Manoel de Barros
Memórias Inventadas- A Terceira Infância

25 de fevereiro de 2010

Retrato


Quando menino encompridava rios.
Andava devagar e escuro _ meio formado em
silêncio.
Queria ser a voz em que uma pedra fale.
Paisagens vadiavam no seu olho.
Seus cantos eram cheios de nascentes.
Pregava-se nas coisas quanto aromas.


Manoel de Barros

CADERNO DE ANDARILHO,
in Concerto a Céu Aberto Para Solos de Ave,
Editora Civilização Brasileira, 1991.

Zona Hermética


De repente, intrometem-se uns nacos de sonhos;
Uma remembrança de mil novecentos e onze;
Um rosto de moça cuspido no capim de borco;
Um cheiro de magnólias secas.
O poeta procura compor esse inconsútil jorro;
Arrumá-lo num poema; e o faz.

E ao cabo Reluz com a sua obra.
Que aconteceu? Isto: O homem não se desvendou, nem foi
atingido: Na zona onde repousa em limos
Aquele rosto cuspido e aquele
Seco perfume de magnólias,
Fez-se um silêncio branco... E, aquele
Que não morou nunca em seus próprios abismos
Nem andou em promiscuidade com os seus fantasmas
Não foi marcado.
Não será marcado.
Nunca será exposto
Às fraquezas, ao desalento, ao amor, ao
poema.


Manoel de Barros

POESIAS, 1956,
in Gramática Expositiva do Chão

Glossário de transnominações em que não se explicam algumas delas (nenhumas) - ou menos


Poesia, s.f.
Raiz de água larga no rosto da noite
Produto de uma pessoa inclinada a antro
Remanso que um riacho faz sob o caule da manhã
Espécie de réstia espantada que sai pelas
frinchas de um homem

Designa também a armação de objetos lúdicos com
emprego de palavras imagens cores sons etc. -
geralmente feitos por crianças pessoas
esquisitas loucos e bêbados

(...)

Poeta, s.m. e f.
Indivíduo que enxerga semente germinar e
engole céu
Espécie de vasadouro para contradições
Sabiá com trevas
Sujeito inviável: aberto aos
desentendimentos como um rosto


Manoel de Barros
 

Publicado no livro Arranjos para assobio (1982)

Cabeludinho


1.

Sob o canto do bate-num-quara nasceu Cabeludinho
bem diferente de Iracema
desandando pouquíssima poesia
o que desculpa a insuficiência do canto
mas explica a sua vida
que juro ser o essencial

- Vai desremelar esse olho, menino!
- Vai cortar esse cabelão, menino!
Eram os gritos de Nhanhá.

(...)

5.

No recreio havia um menino que não brincava
com outros meninos
O padre teve um brilho de descobrimento nos olhos
- Poeta!
O padre foi até ele:
- Pequeno, por que não brinca com os seus colegas?
- É que estou com uma baita dor de barriga
desse feijão bichado.

6.

Carta acróstica:
"Vovó aqui é tristão
Ou fujo do colégio
Viro poeta
Ou mando os padres..."

Nota: Se resolver pela segunda, mande dinheiro
para comprar um dicionário de rimas e um tratado
de versificação de Olavo Bilac e Guima, o do lenço.

7.

Êta mundão
moça bonita
cavalo bão
este quarto de pensão
a dona da pensão
e a filha da dona da pensão
sem contar a paisagem da janela que é de se entrar de soneto
e o problema sexual que, me disseram, sem roupa
alinhada não se resolve.

(...)

10.

Pela rua deserta atravessa um bêbado comprido
e oscilante
como bambu
assobiando...

Ao longo das calçadas algumas famílias
ainda conversam
velhas passam fumo nos dentes mexericando...
Nhanhá está aborrecida com o neto que foi estudar
no Rio
e voltou de ateu
- Se é pra disaprender, não precisa mais estudar

Pasta um cavalo solto no fim escuro da rua
O rio calmo lá embaixo pisca luzes de lanchas
acordadas
Nhanhá choraminga:
- Tá perdido, diz que negro é igual com branco!

(...)

Manoel de Barros

Publicado no livro "Poemas Concebidos sem Pecado"(1937).

12 de novembro de 2009

Experimentando a manhã dos galos


... poesias, a poesia é

- é como a boca
dos ventos
na harpa

nuvem
a comer na árvore
vazia que
desfolha a noite

raíz entrando
em orvalhos...

floresta que oculta
quem aparece
como quem fala
desaparece na boca

cigarra que estoura o
crepúsculo
que a contém

o beijo dos rios
aberto nos campos
espalmando em álacres
os pássaros

- e é livre
como um rumo
nem desconfiado...



Manoel de Barros

COMPÊNDIO PARA USO DOS PÁSSAROS, 1961,
in Gramática Expositiva do Chão,
Editora Civilização Brasileira, 1990.

21 de setembro de 2009

O menino que ganhou um rio


IV

Minha mãe me deu um rio.
Era dia de meu aniversário e ela não sabia
o que me presentear.
Fazia tempo que os mascates não passavam
naquele lugar esquecido.
Se o mascate passasse a minha mãe compraria
rapadura
Ou bolachinhas para me dar.
Mas como não passara o mascate, minha mãe
me deu um rio.
Era o mesmo rio que passava atrás de casa.
Eu estimei o presente mais do fosse uma
rapadura do mascate.
Meu irmão ficou magoado porque ele gostava
do rio igual aos outros.
A mãe prometeu que no aniversário do meu
irmão
Ela iria dar uma árvore para ele.
Uma que fosse coberta de pássaros.
Eu bem ouvi a promessa que a mãe fizera
ao meu irmão
E achei legal.
Os pássaros ficavam durante o dia nas margens
do meu rio
E de noite eles iriam dormir na árvore
do meu irmão.
Meu irmão me provocava assim: a minha árvore
de flores lindas em setembro.
E o seu rio não dá flores!
Eu respondia que a árvore dele não dava
piraputanga.
Era verdade , mas o que nos unia demais eram
os banhos nus no rio entre pássaros.
Nesse ponto nossa vida era um afago!


Manoel de Barros

Memórias Inventadas- A Terceira Infância

13 de julho de 2009

A Draga


A gente não sabia se aquela draga tinha nascido ali, no Porto, como um pé de árvore ou uma duna.
- E que fosse uma casa de peixes?
Meia dúzia de loucos e bêbados moravam dentro dela, enraizados em suas ferrugens.
Dos viventes da draga era um o meu amigo Mário-pega-sapo.
Ele de noite se arrastava pela beira das casas como um caranguejo trôpego
À procura de velórios.
Gostava de velórios.
Os bolsos de seu casaco andavam estufados de jias.
Ele esfregava no rosto as suas barriguinhas frias.
Geléia de sapos!
Só as crianças e as putas do jardim entendiam a sua fala de furnas brenhentas.
Quando Mário morreu, um literato oficial, em necrológio caprichado, chamou-o de Mário-Captura-Sapos! Ai que dor!
Ao literato cujo fazia-lhe nojo a forma coloquial.
Queria Captura em vez de pega para não macular (sic) a língua nacional lá dele...
O literato cujo, se não me engano, é hoje senador pelo Estado.
Se não é merecia.
A vida tem suas descompensações.
Da velha draga
Abrigo de vagabundos e de bêbados, restram as expressões: estar na draga, viver na draga por estar sem dinheiro, viver na miséria
Que ora ofereço ao filólogo Aurélio Buarque de Holanda
Para que as registre em seus léxicos
Pois que o povo já as registrou.

Manoel de Barros

Poemas Concebidos sem Pecados - Postais da Cidade

6 de julho de 2009

Poeminhas pescados numa fala de João


I
O menino caiu dentro do rio tibum
ficou todo molhado de peixe...
A água dava razinha de meu pé.

II

João foi na casa do peixe

remou a canoa
depois pan caiu lá embaixo
na água
afundou. Tinha dois pato grande.
Jacaré comeu minha boca do lado de fora.

III

Nain Remou uma piranha.
Ele pegou um pau pum!
na parede do jacaré...
Veio Maria-preta fazeu três araçás pra mim
Meu bolso teve um sol com passarinhos...

IV

De dia apareceu uma cobrona
deibaixo de João.
Eu matei a boca pequenininha daquela cobra.
Ninguém não tinha um rosto com chão perto.

V

Deminha mão dentro do quarto
meu lambarizinho
escapuliu — ele priscava
priscava
até cair naquele
meu corixo.
E se beijou todo de água!
Eu se chorei...

VI

A Noite caiu da árvore.
Maria pegou ela pra criar
e ficou preta...
Vi um rio indo embora de andorinhas...

VII

Escuto o meu rio:
é uma cobra
de água andando
por dentro de meu olho...

VIII

O sapo de pau
virou chão...
O boi piou cheio de folhas com água.
Eu ia no mato sozinho
o côco de capivaras era rodelinhas — bola de gude
eu quebrei uma com meu sapato
todas viraram chão também...

IX

Você viu um passarinho abrindo naquela casa
que ele veio comer na minha mão?
Minha boca estava seca igual do que
uma pedra em cima do rio.

X

Vento?
Só subindo no alto da árvore
que a gente pega ele pelo rabo...



Manoel de Barros

Do livro: "Compêndio para uso dos pássaros", Livraria São José, 1961, RJ

Pêssego


Proust
Só de ouvir a voz de Albertine entrava em
orgasmo. Se diz que:
O olhar de voyeur tem condições de phalo
(possui o que vê).
Mas é pelo tato
Que a fonte do amor se abre.
Apalpar desabrocha o talo.
O tato é mais que o ver
É mais que o ouvir
É mais que o cheirar.
É pelo beijo que o amor se edifica.
É no calor da boca
Que o alarme da carne grita.
E se abre docemente
Como um pêssego de Deus.


Manoel de Barros

Do livro: "Poemas Rupestres", Ed. Record, 2004, RJ

Desejar Ser


Nasci para administrar o à-toa
o em vão
o inútil.

Pertenço de fazer imagens.
Opero por semelhanças.
Retiro semelhanças de pessoas com árvore
de pessoas com rãs
de pessoas com pedras
etc etc.

Retiro semelhanças de árvores comigo.
Não tenho habilidade pra clarezas.
Preciso de obter sabedoria vegetal.
(Sabedoria vegetal é receber com naturalidade uma rã no talo.)
E quando esteja apropriado para pedra, terei também sabedoria mineral.

IX
O poema é antes de tudo um inutensílio.
Hora de iniciar algum
convém se vestir de roupa de trapo.
Há quem se jogue debaixo de carro
nos primeiros instantes.

Faz bem uma janela aberta.
Uma veia aberta.

Pra mim é uma coisa que serve de nada o poema
Enquanto vida houver

Ninguém é pai de um poema sem morrer.

Manoel de Barros
Livro Sobre Nada (1966-1998)

20 de abril de 2009

Uma Didática da Invenção


I
Para apalpar as intimidades do mundo é preciso saber:
a) Que o esplendor da manhã não se abre com
faca
b) 0 modo como as violetas preparam o dia
para morrer
c) Por que é que as borboletas de tarjas
vermelhas têm devoção por túmulos
d) Se o homem que toca de tarde sua existência
num fagote, tem salvação
e) Que um rio que flui entre 2 jacintos carrega
mais ternura que um rio que flui entre 2
lagartos
f) Como pegar na voz de um peixe
g) Qual o lado da noite que umedece primeiro.
Etc.
etc.
etc.
Desaprender 8 horas por dia ensina os princípios.

IV
No Tratado das Grandezas do Ínfimo estava
escrito:
Poesia é quando a tarde está competente para
Dálias.
É quando
Ao lado de um pardal o dia dorme antes.
Quando o homem faz sua primeira lagartixa
É quando um trevo assume a noite
E um sapo engole as auroras

IX
Para entrar em estado de árvore é preciso
partir de um torpor animal de lagarto às
3 horas da tarde, no mês de agosto.
Em 2 anos a inércia e o mato vão crescer
em nossa boca.
Sofreremos alguma decomposição lírica até
o mato sair na voz.

Hoje eu desenho o cheiro das árvores.

IX
O rio que fazia uma volta atrás de nossa casa
era a imagem de um vidro mole que fazia uma
volta atrás de casa.
Passou um homem depois e disse: Essa volta
que o rio faz por trás de sua casa se chama
enseada.
Não era mais a imagem de uma cobra de vidro
que fazia uma volta atrás de casa.
Era uma enseada.
Acho que o nome empobreceu a imagem.

Manoel de Barros
Do "O Livro das Ignorãnças"

8 de abril de 2009

Retrato quase apagado em que se pode ver perfeitamente nada


I
Não tenho bens de acontecimentos.
O que não sei fazer desconto nas palavras.
Entesouro frases. Por exemplo:
- Imagens são palavras que nos faltaram.
- Poesia é a ocupação da palavra pela Imagem.
- Poesia é a ocupação da Imagem pelo Ser.
Ai frases de pensar!
Pensar é uma pedreira. Estou sendo.
Me acho em petição de lata (frase encontrada no lixo)
Concluindo: há pessoas que se compõem de atos, ruídos, retratos.
Outras de palavras.
Poetas e tontos se compõem com palavras.

II
Todos os caminhos - nenhum caminho
Muitos caminhos - nenhum caminho
Nenhum caminho - a maldição dos poetas.

III
Chove torto no vão das árvores.
Chove nos pássaros e nas pedras.
O rio ficou de pé e me olha pelos vidros.
Alcanço com as mãos o cheiro dos telhados.
Crianças fugindo das águas
Se esconderam na casa.
Baratas passeiam nas formas de bolo...
A casa tem um dono em letras.
Agora ele está pensando -
no silêncio Iíquido
com que as águas escurecem as pedras...
Um tordo avisou que é março.
IV
Alfama é uma palavra escura e de olhos baixos.
Ela pode ser o germe de uma apagada existência.
Só trolhas e andarilhos poderão achá-la.
Palavras têm espessuras várias: vou-lhes ao nu, ao
fóssil, ao ouro que trazem da boca do chão.
Andei nas pedras negras de Alfama.
Errante e preso por uma fonte recôndita.
Sob aqueles sobrados sujos vi os arcanos com flor!

V
Escrever nem uma coisa Nem outra -
A fim de dizer todas
Ou, pelo menos, nenhumas.
Assim,
Ao poeta faz bem
Desexplicar -
Tanto quanto escurecer acende os vaga-lumes.

VI
No que o homem se torne coisal,
corrompem-se nele os veios comuns do entendimento.
Um subtexto se aloja.
Instala-se uma agramaticalidade quase insana,
que empoema o sentido das palavras.
Aflora uma linguagem de defloramentos, um inauguramento de falas
Coisa tão velha como andar a pé
Esses vareios do dizer.

VII
O sentido normal das palavras não faz bem ao poema.
Há que se dar um gosto incasto aos termos.
Haver com eles um relacionamento voluptuoso.
Talvez corrompê-los até a quimera.
Escurecer as relações entre os termos em vez de aclará-los.
Não existir mais rei nem regências.
Uma certa luxúria com a liberdade convém.

VII
Nas Metamorfoses, em 240 fábulas,
Ovídio mostra seres humanos transformados
em pedras vegetais bichos coisas
Um novo estágio seria que os entes já transformados
falassem um dialeto coisal, larval,
pedral, etc.
Nasceria uma linguagem madruguenta, adâmica, edênica, inaugural
- Que os poetas aprenderiam -
desde que voltassem às crianças que foram
às rãs que foram
às pedras que foram.
Para voltar à infância, os poetas precisariam também de reaprender a errar
a língua.
Mas esse é um convite à ignorância? A enfiar o idioma nos mosquitos?
Seria uma demência peregrina.

IX
Eu sou o medo da lucidez
Choveu na palavra onde eu estava.
Eu via a natureza como quem a veste.
Eu me fechava com espumas.
Formigas vesúvias dormiam por baixo de trampas.
Peguei umas idéias com as mãos - como a peixes.
Nem era muito que eu me arrumasse por versos.
Aquele arame do horizonte
Que separava o morro do céu estava rubro.
Um rengo estacionou entre duas frases.
Uma descor
Quase uma ilação do branco.
Tinha um palor atormentado a hora.
O pato dejetava liquidamente ali.

Manoel de Barros