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22 de março de 2009

Anseio por um Fogo Vivo


Quantas vezes, em horas de quietude,
Anseio por uma vida de luz e de paz,
Uma vida de harmonia, segurança, felicidade!
Quantas vezes entrevejo, ao longe,
Um reino de beatitude e de amor,
A acenar-me suavemente!... E, nesses momentos de quietude dinâmica,
Eu me sinto assaz forte
Para superar todos os óbices
E romper caminho através dos impossíveis.
Mas... após dias, semanas e meses,
Desfalecem-me as forças...
Tudo em derredor é deserto árido...
Fastidiosa monotonia...
Cinzento areal...
Triste mediocridade...
E tão fácil começar,
Tão difícil continuar,
Dificílimo terminar...
E, perdendo de vista os longínquos páramos,
Eu me conformo novamente
Com a velha e cômoda rotina
Da vida horizontal de sempre...
Se todos assim vivem e vegetam,
Por que deveria eu ser uma exceção?
Não é isto tentação do meu lúcifer de dentro?
Querer ser herói e super-homem?...
E o meu velho egoísmo acomodatício
Doura de virtude a minha covardia... Minha alma, porém, insatisfeita,
Continua a clamar pela luz,
Continua a ansiar pela paz imperturbável...
Mas essa luz e essa paz são filhas do sofrimento.
E eu ainda não sofri bastante...
Todas as minhas teses e teorias
Por mais verdadeiras e boas,
São como fogo pintado, artisticamente pintado
Na tela do meu ego...
Fogo fictício, sem luz nem calor...
Importa que sobre mim desabem
Dilúvios de dores,
Infernos de sofrimentos,
Oceanos de decepções,
Para que a fria inércia do meu fogo fictício
Se converta na ardente dinâmica de um fogo real!
Por isto, Senhor, não te peço que me poupes
Dores e decepções,
Rogo-te apenas as ponhas a serviço
Da minha cristificação,
Para que eu me realize plenamente
Em Cristo!...
Que eu seja crucificado, morto e sepultado,
Entre o Getsêmane e o Gólgota,
E ressuscite para uma vida nova,
Vida liberta dessas pequenas e grandes misérias
Que ainda me prendem a uma zona que não é minha...
Vida liberta, finalmente,
Desses ídolos e fetiches
Do meu velho ego...
Realizado em mim
A nova creatura em Cristo. .



Huberto Rohden

Do livro: Escalando o Himalaia - Ed. Martin Claret

31 de julho de 2007

Cultores da mediocridade


Meu ignoto amigo. Se quiseres ser impenitente cultor da rotina e mediocridade, guia-te pelas normas seguintes: Antes de pensar, informa-te sempre o que deve ser pensado, a fim de não introduzir no mundo o contra bando de idéias novas. Não penses nunca com o próprio cérebro — mas sempre com a cabeça dos outros. Dize sempre sim quando os outros dizem sim — e não quando os outros dizem não. Lê cada manhã, ao café, o teu jornal, para saberes o que deve ser pensado naquelas 24 horas. Quando vier alguém com idéias novas, evita-o como um perigo social e tem-no em conta de herege e demolidor. Não te exponhas ao perigo de fazer o que o vizinho não faz — mas lembra-te da comprovada sapiência burguesa: o seguro morreu de velho. Sê amigo dedicado da tua tépida poltrona — e não te exponhas a vertigens de vastos horizontes. Prefere sempre as paredes maciças dum cárcere e as grades duma gaiola às incertezas dum vôo estratosférico. Não abras nunca portas fechadas — abre tão somente portas abertas. Não explores caminhos novos, como os bandeirantes — anda sempre por estradas batidas e sobre trilhos previamente alinhados. Vai sempre com o grosso do rebanho, como os bons carneiros — e não procures caminho à margem da rotina geral. Em suma, meu insigne cultor da mediocridade: Deixa tudo como está para ver como fica. Destarte, conservarás a saúde e a tranqüilidade dos nervos e poderás tomar, cada dia, com sossego, teu chope ou coquetel — e passar por homem de bem.

***
Se, porém, resolveres, um dia, sair da rotina tradicional e expor-te ao perigo mortífero dum ideal superior, então lê com atenção o que te diz um homem que conhece a vida: Vai às margens do Ganges e pede ao mais robusto dos elefantes que te ceda a sua pele paquidérmica, para com ela revestires a tua alma. Vai as praias do Nilo e arranca ao mais velho dos crocodilos a sua impenetrável couraça e faze dela o invólucro do teu coração. Senta-te aos pés de mestre Zenon, rei dos Estóicos, e pede que te ensine à filosofia de ser pedra in bloco de gelo, cadáver ambulante, indiferença absoluta. E, depois de assim encouraçares a tua alma, sai por este mundo afora e dize aos homens da honesta mediocridade que vives por um ideal que não está no estômago, nem nos nervos nem no sangue — e verás que eles te declararão guerra de morte. Pois, deves saber, meu amigo, que o mundo não sacrifica um só ídolo por um ideal. Desde que o mais arrojado idealista da história foi crucificado, morto e sepultado — são todos os idealistas crucificados pelos culto da mediocridade. Nada de grande acontece no mundo sem que o mundo se revolte. Tudo que é belo e grande — acaba fatalmente entre os braços da cruz. É esta a gloriosa tragédia dos homens superiores.


Huberto Rohden