26 de outubro de 2010

Observador Versus Coisa Observada


Em nosso paradígma o observador está separado da coisa observada.
Com isto cria-se o espaço entre ambos e o tempo para percorrê-lo:
estamos diante do universo conhecido, portanto: passado, presente e futuro.
...Onde ocorrerão todos os acontecimentos e na dimensão hominal; 
os conflitos, prazeres e dores. Este é o nosso paradígma e devemos conhecê-lo.
Agora, o observador é a coisa observada; não há mais divisão, fragmentação.
O que acontece então?
Somente o eterno (ausência de tempo) e infinito (ausência de espaço).
A individualidade (indivizivel) do Ser no eterno/infinito presente; no instante mágico do agora.isso é meditação.


Krishnamurti

24 de outubro de 2010

O Poeta pede ao seu amor que lhe escreva...


Amor de minhas entranhas, morte viva,
em vão espero tua palavra escrita
e penso, com a flor que se murcha,
que se vivo sem mim quero perder-te.

O ar é imortal. A pedra inerte
nem conhece a sombra nem a evita.
Coração interior não necessita
o mel gelado que a lua verte.

Porém eu te sofri. Rasguei-me as veias,
tigre e pomba, sobre tua cintura
em duelo de kordiscos e açucenas.

Enche, pois, de palavras minha loucura
ou deixa-me viver em minha serena
noite da alma para sempre escura.


Federico García Lorca

tradução: William Agel de Melo

15 de outubro de 2010

Insônia


A boca escancarada da noite
os urros do silêncio
as teclas mudas

Não tilintam os cristais
não estilhaçam a vidraça
os amantes não sussurram
não há sinos de igreja
o mundo acabou
o relógio dorme
o tempo não passa

Onde estão os latidos
os galos os gritos
os olhos do sol?

Na cama imensa
o corpo exausto
o vazio da tua ausência
e os mil anos dessa noite
que me engole
que me vomita.


Líria Porto

Das coisas que sei...


Em nada que perco,
recupero integralmente
a liberdade de haver, algum dia, possuído.
E a minha vida, em queda livre,
dissolve-se no mar de pensamentos,
num calix de desejo, totalmente diluído.

Das coisas que sei me farto,
me basto, na lembrança que me amarra.
Como se o futuro muito adiantado estivesse,
e na angústia de algo inacabado, ainda admira...
Como a ilusão que em meu peito se instala
e ainda respira...


Aurora Zanluchi

7 de outubro de 2010

Ponte da Boa Vista


Esta ponte não se curva
ante o império do rio.
São braços, varandas de ferro,
que em seu passeio se erguem...

De longe,
a ausência do arco
une um lado a outro lado -
trança de espelhos
que no espaço se inscreve.

Grade que guarda o passado,
gaiola aberta
peneirando a paisagem,
da rua Nova à Imperatriz,
a menor distância é a sua passagem.

Ponte do rio,
das gentes, dos carros,
da visão de imensas flores:
arte de um céu que nos invade.



Weydson Barros Leal

Cotovia


— Alô, cotovia!
Aonde voaste,
Por onde andaste,
Que saudades me deixaste?

— Andei onde deu o vento.
Onde foi meu pensamento
Em sítios, que nunca viste,
De um país que não existe . . .
Voltei, te trouxe a alegria.

— Muito contas, cotovia!
E que outras terras distantes
Visitaste? Dize ao triste.

— Líbia ardente, Cítia fria,
Europa, França, Bahia . . .

— E esqueceste Pernambuco,
Distraída?

— Voei ao Recife, no Cais
Pousei na Rua da Aurora.

— Aurora da minha vida
Que os anos não trazem mais!

— Os anos não, nem os dias,
Que isso cabe às cotovias.
Meu bico é bem pequenino
Para o bem que é deste mundo:
Se enche com uma gota de água.
Mas sei torcer o destino,
Sei no espaço de um segundo
Limpar o pesar mais fundo.
Voei ao Recife, e dos longes
Das distâncias, aonde alcança
Só a asa da cotovia,
— Do mais remoto e perempto
Dos teus dias de criança
Te trouxe a extinta esperança,
Trouxe a perdida alegria.


Manuel Bandeira

3 de outubro de 2010

Soberania


Um dia eu também sento ai... Adorei a foto amor!


Naquele dia, no meio do jantar, eu contei que
tentara pegar na bunda do vento — mas o rabo
do vento escorregava muito e eu não consegui pegar.
Eu teria sete anos. 
A mãe fez um sorriso carinhoso para mim e não disse nada. 
Meus irmãos deram gaitadas me gozando. 
O pai ficou preocupado e disse que eu tivera um vareio da imaginação.
Mas que esses vareios acabariam com os estudos.
E me mandou estudar em livros. 
Eu vim. E logo li alguns tomos havidos na biblioteca do Colégio.
E dei de estudar pra frente. 
Aprendi a teoria das idéias e da razão pura. 
Especulei filósofos e até cheguei aos eruditos. 
Aos homens de grande saber. 
Achei que os eruditos nas suas altas abstrações 
se esqueciam das coisas simples da terra. 
Foi aí que encontrei Einstein (ele mesmo— o Alberto Einstein). 
Que me ensinou esta frase:
A imaginação é mais importante do que o saber.
Fiquei alcandorado! 
E fiz uma brincadeira. 
Botei um pouco de inocência na erudição. 
Deu certo. Meu olho começou a ver de novo as pobres coisas do
chão mijadas de orvalho. 
E vi as borboletas. 
E meditei sobre as borboletas. 
Vi que elas dominam o mais leve sem precisar de ter motor nenhum no
corpo. (Essa engenharia de Deus!) 
E vi que elas podem pousar nas flores e nas pedras sem magoar as
próprias asas. 
E vi que o homem não tem soberania
nem pra ser um bentevi.

Manoel de Barros

Texto extraído do livro "Memórias Inventadas - A Terceira Infância", Editora Planeta - São Paulo, 2008, com iluminuras de Martha Barros.

Saudade


Saudade é solidão acompanhada,
é quando o amor ainda não foi embora,
mas a amada já...
Saudade é amar um passado
que ainda não passou,
é recusar um presente que nos machuca,
é não ver o futuro que nos convida...
Saudade é sentir que existe
o que não existe mais...
Saudade é o inferno dos que perderam,
é a dor dos que ficaram para trás,
é o gosto de morte na boca dos que continuam...
Só uma pessoa no mundo deseja sentir saudade:
aquela que nunca amou.
E esse é o maior dos sofrimentos:
não ter por quem sentir saudade,
passar pela vida e não viver.
O maior dos sofrimentos é nunca ter sofrido.


Pablo Neruda